segunda-feira, 2 de novembro de 2015

À esquerda do carvalho

(Fica aqui uma das minhas traduções de um dos poemas de um dos maiores poetas da literatura hispano-americana: Mario Benedetti)

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Mas o Jardim Botânico é um parque adormecido
Onde qualquer um pode sentir-se árvore ou próximo
Sempre e quando se cumpra um requisito prévio.
Que a cidade exista tranquilamente longe.

O segredo é encostar-se digamos em um tronco
E ouvir através do ar que admite barulhos mortos
Como na Millán e Reyes galopam os bondes.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Mas o jardim Botânico sempre teve
Uma agradável propensão aos sonhos
A que os insetos subam pelas pernas
E a melancolia desça pelos braços
Até que alguém feche os punhos e a pegue.

Depois disso tudo o segredo é olhar pra cima
E ver como as nuvens disputam-se as copas
E ver como os pássaros disputam-se os ninhos.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Ah! Mas os casais que fogem ao botânico
 Já descem de um táxi ou de uma nuvem
Falam comumente de assuntos importantes
E se olham fanaticamente nos olhos
Como se o amor fosse um curtíssimo túnel
E se eles se contemplassem por dentro desse amor.

Aqueles dois por exemplo à esquerda do carvalho
(Também poderia chamá-lo de amendoeira ou araucária
Graças à minha lacuna sobre Pã e Lineu)
Falam e pelo visto as palavras
Ficam comovidas de olhá-los
E a mim não chegam sequer os ecos.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Mas é maravilhoso imaginar o que  dizem
Sobretudo se ele morde um raminho
E ela deixa um sapato sobre a grama
Sobretudo se ele tem um interior triste
E ela quer sorrir e não pode.

Para mim o rapaz está dizendo
O que se diz às vezes no jardim botânico

Ontem chegou outono
O sol do outono
E me senti feliz
Como há muito
Que linda está
Te amo
Em meus sonhos
De noite
Se escutam buzinas
O vento sobre o mar
E apesar de tudo aquilo
também é o silêncio
olhe-me assim
te amo
eu trabalho com vontade
faço contas
fichas
discuto com cretinos
distraio-me e xingo
dê-me sua mão
agora
e você sabe
que te amo
penso às vezes em Deus
bom não tantas vezes
não gosto de roubar
seu tempo
além do mais está longe
você está a meu lado
agora mesmo estou triste
estou triste e te amo
e passarão as horas
a rua como um rio
as árvores que ajudam
o céu
os amigos
e que sorte
te amo
há tempos era menino
há tempos é o que importa
o azar era simples
como entrar em seus olhos
deixe-me entrar
te amo
menos mal que te amo

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Mas pode calhar que logo alguém advirta
Que na realidade se trata de algo mais desolado
Um desses amores de tântalo e azar
Que Deus nos admite porque tem ciúmes.

Prestem atenção como ele acusa com ternura
E ela se apóia contra a casca
Prestem atenção como ele apresenta recordações
E ela se consterna misteriosamente.

Para mim o rapaz está dizendo
O que se diz às vezes no jardim botânico

Você disse isso
Nosso amor
sempre foi um menino morto
Só de momentos parecia
Que ia viver
Que íamos vencer
Mas nós dois fomos tão fortes
Que o deixamos sem seu sangue
Sem seu fruto
Sem seu céu
Um menino morto
Só isso
Maravilhoso e condenado
Talvez tivesse um sorriso
Como o seu
Doce e profundo
Talvez tivesse uma alma triste
Como minha alma
Pouca coisa
Talvez aprendesse com o tempo
A se virar
A usar o mundo
Mas os meninos  que assim vêm
Mortos de amor
Mortos de medo
Têm tão grande coração
Que se destroem sem saber
Você disse isso
Nosso amor
Sempre foi um menino morto
E que verdade dura e sem sombra
Que verdade fácil e que pena
Eu imagino que era um menino
E era apenas um menino morto
Agora o que fica
Só fica
Medir a fé e o que recordamos
O que pudemos ter sido
Para o menino que não pôde ser nosso
O que mais
Acaso quando chegue
Um vinte e três de abril e abismo
Você onde estiver
Leve-lhe flores
Que eu irei com você.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Mas o jardim botânico é um parque adormecido
Que só desperta com chuva.

Agora a última nuvem resolveu ficar
E nos está a molhar como alegres mendigos.

O segredo está em correr com precauções
a fim de não matar nenhum escaravelho
e não pisar nos fungos que aproveitam
para nascer desesperadamente.

sem prevenções viro-me e seguem
aqueles dois à esquerda do carvalho
eternos e escondidos na chuva
dizendo-se quem sabe quais silêncios

não sei se algumas vez aconteceu com vocês
mas quando a chuva cai no botânico
aqui ficam só os fantasmas
vocês podem ir

eu fico.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

15/10 Dia do Sofressor



É quarta-feira e acabei de fazer exames do coração no INCOR e aproveito o pouco tempo que tenho para escrever, às vésperas do meu dia, ou melhor, do dia de todos os professores do Brasil, alguma coisa que me aconteceu há alguns anos, numa cidade onde morei.

Era manhã e chovera a noite toda. Toca o celular. Bêbado de sono supus que tivesse esquecido de desligar a função de despertador. Mas, não! Era um telefonema realmente. Meus pais me ligando. Minha mãe, a primeira a falar, esperava que eu já estivesse desperto e me aprontando para as aulas do dia, mas eu inescrupulosamente rompi dizendo que não trabalharia porque era 15 de outubro. Ela sabendo, nem senti efeito nenhum em sua voz, cumprimentou-me e deixou uma frase que talvez nesses poucos anos de professor eu nunca tinha ouvido dela: “é linda a profissão que você exerce, meu filho”. Eu agradeci. O velho foi rápido ao dizer que esperava que eu voltasse logo. Mesmo assim ficou um paradoxo na minha cabeça. Todas as vezes que vou visitá-los, uma vez ao mês (até gostaria de ir mais, mas o dinheiro é exíguo), calha uma conversa sobre os tempos difíceis, a falta de dinheiro, as injustiças sociais, e no fim, ao invés de acabar em pizza nossas conversas, elas pendem para o lado de minha profissão.  E meus familiares, com aquele aspecto de quem dá de ombros e franze o sobrolho e a testa juntos, soltam uma daquelas frases que ninguém gosta de ouvir porque é a pura verdade: “é, meu irmão, você precisa mudar de profissão...” Essa frase dói, cria ecos, é contagiosa e também veste uma roupagem suave, mas produz o mesmo impacto quando bate nos tímpanos da consciência.

A pura verdade é que meu pai me acha um desperdício. Para ele sou uma espécie de promessa que não vingou. Filho caçula, fui sempre o adulado e o que ficou a maior parte do tempo se dedicando aos estudos enquanto os outros dois mais velho aos 18 anos já estavam em São Paulo comendo “o pão que o Diabo amassou”.
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Pouco a pouco tenho me convencido. Muitas vezes abaixo a cabeça e se me perguntam qual a minha ocupação, já perdido o orgulho de dizer professor com a boca cheia, falo baixo, quase inaudível, desconverso ou falo algo genérico como: “sou funcionário público”.

Nunca vi profissão tão imprescindível e tão desnecessária. Todo político hasteia as três bandeiras da campanha: Saúde, Educação e Segurança. Mas são tão tolos que ainda não descobriram que educação não dá voto. É mais fácil ele dizer que vai acabar com as escolas e o dinheiro vai aplicar em Estádios, Festas, Exposições Agroindustriais, fomentar a indústria dos shows, levar a Ivete Sangalo a todas as cidades do Brasil, fazer Brazilian Day em Copacabana, ou em Manaus, construir praças, parques, motéis e tudo quanto há de ideias idiotas. Por que se preocupar com a educação? É só um gasto! Maldito Art. 6º da Constituição Federal de 1988 que nos garante a educação, és tu que me asseguras o emprego, és tu que me fazes mesquinho.

Se não houvesse escola nesse país só meia dúzia brigaria pelas ruas e protestaria com efeitos ínfimos. Prova disso são nossas greves. Perdemos até para os Correios! Cruzaram os braços e pararam de entregar as encomendas. A imprensa, que é uma geladeira, funcionou e deu as caras. Vai ver que necessitam mais de um carteiro do que de um professor. Entre os policiais Civis e Militares, que ganham uma merreca a mais do que nós, porque o risco de levarem um tiro, não vejo tanta diferença, é muito maior do que o nosso. Tudo isto dá até na imprensa. A verdade é que precisam mais de um policial do que de um professor.

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Tenho percebido que possuo traumas. De hora em hora bate um sinal em meu cérebro e meus olhos percorrem o pátio da escola. As salas batem as portas e os alunos cantam em coro: “ Ah...! Por que você veio?”. Logo me acomete o mal da Visão do Insuportável. Nunca vi alguém que passe a noite toda assistindo à TV valer mais que eu. Nunca vi um simples abrir e fechar de portões valer mais que eu. Nunca vi um braço esquerdo de diretor valer mais que eu. Honestamente me tenho achado insuportável. Menos brincalhão, mais taciturno, severamente intolerante. Discuto com fanáticos, adictos, santos, sábios e cretinos, com corrompidos do sistema, com os que nunca vão entender o que escrevo, com os que não se entendem, com os que amo e com os que me acham fanático, cretino e enfadonho. O que aprendo é que a perspectiva é um ponto longe a ser atingido por um barco.

Campeões de desilusões, buscamos as saídas mais próximas ou até mais longínquas possíveis. Apelamos para médicos, abonadas, justificadas, injustificadas e licenças-saúde. Golpes baixos são aceitáveis. Procurar acomodações, readaptar-se, cruzar as pernas e ficar a envelhecer no pátio de uma escola é levantar o troféu do futuro mais impostor. Eu não consigo acreditar que chegamos a 2015.

Somos mendigos do trabalho docente. Qualquer feriado é a uma bênção. Conseguir uma boca na diretoria é um privilégio. Readaptar-se é dádiva. Ser professor sem dar aula, ou sair da sala de aula, é uma glória. Mas eu, covarde e traumático, tolo e inoportuno, preferi ser um objeto de preterição, irascível de mim. Por isso sou azedo e bilioso.  Não encontro razões para escrever esse artigo que seja o motivo algo que escreva para mim mesmo, ou para ninguém, só por desabafo. Pode ser que alguém perceba nas entrelinhas a latência de uma inveja, mas eu confirmo e faço-a patente. Sinto inveja dos que estudaram pouco e são muito mais do que eu. Invejo os que trabalham pouco e ganham demais, invejo os que não trabalham e ganham muito. Invejo os que trabalham bem e de bem. Invejo os trabalhos que fazem falta se realmente não existissem. Sinto um profundo desconforto quando percebo no fundo do meu coração que se um dia eu parar, ficar louco, inválido ou morrer, a vida continuará a mesma ou até ficará melhor.

Meus pais e meus familiares pouco sabem das angústias que estas pequenas coisas causam. Sinto-me pulsar as veias quando penso nas escolas e nas agruras cometidas contra nós.

É fim de tarde, nesta quarta-feira prudentina. Entre um Sol que arde e quase 40 graus de sensação térmica infernal, encerro esta minha crônica nefasta e plena de desabafos.

Feliz dia dos professores. Se é que existam professores, ou até por que não, um pouco de felicidade.


Prof. Bira

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O Acidente

__Está vendo este retrato, seu moço... É o de Reinaldo Nauape de Jesus. Morreu de um acidente, nem parece que ontem. Era um menino. Rapazote. Como pode ver, seu moço, era um desses  moleques que  correm atrás da bola aí; ele era assim. Consegui vê-lo com meus próprios olhos. É de meu capricho que vou delatar.





***




            Enquanto eu lia da varanda, daquela varanda, da casa que era  de minha mãe  é que meu bairro é este aqui vizinho; basta passar  vinte ,  só vinte metros de pasto deste terreno baldio que pertence a uma empreiteira do centro  eu já dava de frente com  a Vila Esperança, vila na qual viveu Reinaldo Nauape de Jesus, o Nauape, como passaram a chamá-lo.

            Dizem que quando nascera, a mãe não o registrou em cartório. Era uma senhora ignorante que se deu conta de fazê-lo existir por lei mais de um ano após  ter-lhe dado a luz, quando ele, Nauape, já dava seus primeiros passos pelas ruas desprovidas de pavimento asfáltico da Vila Esperança.

Éramos diferentes. O meu caso, foi muito diferente. Muito diferente do  dele. Moráramos, eu e minha mãe, naquela casa de varanda para este terreno. Lá era já um bairro menos violento, de pessoas com outros fins, sem muitos problemas. Todos quantos têm problemas neste mundo, disso sei. Mas nós tínhamos e conseguíamos sorrir e comer razoavelmente. Eu e minha mãe.

            A Mamãe, como eu a considerava, privava-se para meus estudos. Ela era esclarecida; pobre, mas esclarecida. Exigia que eu lesse enquanto os garotos demais corriam e zoavam na rua. Eu não tinha amiguinhos. Era uma figura de lado; descartada. Mas eu lia; e ai de mim se faltasse na escola que, a custo de um dia e meio na fila, Mamãe me conseguira matricular. Mamãe era trabalhadora e trabalhadeira. Começara na labuta como babá para uma família abastada do centro; fora ajudante de feira, por curto período, quando pulou para auxiliar de escritório a convite de um senhor gordo que a percebera nesta situação. No novo emprego, no qual permaneceu até seu derradeiro dia de vida,  começou por carregar papéis burocráticos dum lado ao outro do estabelecimento até que, com sua habilidade adquirida com a máquina datilógrafa  que manuseava no fim de todo dia,  foi ascendida a escriturária, cargo em que se estacou definitivamente. Nem o motivo de minha adoção, que não me permito narrá-lo, perturbou-lhe a comum vida corrida que levava. Criou-me como um filho que jamais tivera.






***







            Nauape não lia. Jamais lera. Diga-se por passagem que nem este e nem sua mãe, D. Maria de Jesus, tiveram culpa. A velha, como disse de sua ignorância, entendia a escola como lugar de vagabundo que não trabalhava e procurava vida mole. Era devota ferrenha de orixás e santos. Incorporava, de quando em quando, Pai velho, Zé Pilintra e outros espíritos de terreiros de Macumba. Todos da redondeza já a pilharam na rua toda transformada, com olhos virados, falando nada com nada, e jurando, demoníaca e possessa, mortes e pestes no trabaio. Dizia de seu único filho ser prometido da luz para o povo daquela Vila. E fazia promessa de quando tomasse atitude de homem, vestiria todo de branco, dos sapatos ao colarinho, religiosamente, toda segunda-feira. Vivi-a muito falar:

__Escola! Maquá! Boto o menino em faina, mas não o coloco naquela sombra de ocientos.   De filhinho de papai com mamãe e bobagem. Verdade é aqui, oh, no braço! Reinaldinho é da luz. Ele cresce e vai servi aos santos, e vai fazê muitos trabaio.

É justo desfazer qualquer alusão à correlação quanto à crença de D. Maria de Jesus. Seu moço pode fazer preconceito quanto a esta senhora, mas era muito asseada e zelosa, e além de tudo, honesta com suas obrigações. Portanto, crença não faz a pendência degenerativa do indivíduo, culturalmente.

O moleque crescera em meio um ar insociável. Pés no chão, camisa furada, roupa da pechincha, faziam-no, como muitos daqui, um rapaz incomum. Incomum se não houvesse avenidas e vitrinas de calçados e bolsas, e se não existissem trajes finos, e filhos finos, e crianças finas, destas que pintam nas ruas do centro; longe de seu bairro de Vila Esperança. Crianças de uma outra realidade. Do outro lado da balança.






***





O Marketing é poderoso, e faz as cabeças, mesmo as dos bem sucedidos. Seduz e apaixona. Repercute ferozmente. Pega-nos pelo coração, se não fosse a fraqueza que todo ser tem para com as novidades. E D. Maria de Jesus não resmungara ao decidir comprar uma utilidade que os moradores da Vila Esperança comentavam de muito antes. E quando chegou aquilo em sua casa, estava metido numa caixa de papelão, pediu para pô-lo sobre o sofá daqueles dois cômodos que compreendiam o barraco de tábuas. E Já gritou com o moleque:

__ Olha, moleque! Não ponha a mão, hem. Se eu ver você com essas mãos sujas de terra, botadas  aqui  depondo as pontas dos dedos da mão direita sobre  a caixa de papelão  eu corto você de cinta, hem. Olha lá, hem!

Nauape replicava, como que anuindo.

__ Tá bem, Mãe. Tá bem. Pode ficar descansada.

Nauape olhou. A curiosidade não se dissipou. Era corajoso. Não tinha medo da mãe, que era ruim, mas bem zelosa. Em quinze dias, à televisão assistiam os dois, sorrindo e gargalhando com as programações interativas.

Em seus olhos, que reluziam o brilho das imagens reproduzidas pelo aparelho televisor, cintilavam fagulhas de desejo. Um mundo todo em projeção para a sua mente toda aberta e desprovida de proteção antimídia. Ele sorria. Ele amava. Apaixonava-se. Tão garoto de si. Tão fraco. Depreendia-se todo diante daquilo. Nem quem o chamava, como que para uma sorrateira brincada à rua, surpreendia-o. Para sair à rua, tornava-se um custo tremendo; tendo a mãe de buscá-lo ou gritar, como o costume da casa.

__Vá para a Rua, Moleque! Saia desta TV. Vai Queimar deste jeito.

A ele lhe aprazia, como a todos lhes apraz, o Jornal Nacional da Rede Globo de Telecomunicações. Mesmo sem saber o porquê, e estar preparado para saber como é a situação momentânea do país, ele adorava as programações.

Com seus já quatorze anos, lógico, logo após o seu programa predileto, corria à rua de chão puro do bairro imaginar com os colegas e falar dos fatos.

__ Hei, meu! Cês viram lá o cara. Puts! atirou na cara dura contra os polícia e saiu correno.

__ Hei, Nauape. O cara era maluco, mano. Deu tiro e saiu correno?

__É, véio!! Cês tinham que vê. Ninguém pegô o puto. Diz que roubou Quinhentas pila do Posto e bateu de frente com os gambé chegano! Ah! Aí, aí foi bala pra todo lado, mano.

E soltava risada alta.

Estas conversas eram longas. As crianças do Bairro, numa maneira geral, não haviam opção para distração e coisa assim. Quando não era TV, deviam empreender grande caminhada até o córrego da Fazenda St. Estela, onde nadavam nus, em suas águas correntes e comprometidas.

O que mudou sua vida, aquele corpo negro já em puberdade, de olhos amendoados e cabelos sarará, foi o noticiário de um traficante carioca em exclusiva tiragem ao Jornal. Que jurava morte àqueles que o traíssem, e dava modos de ação no morro em que morava contra as investidas policiais e rivais. Aquela gíria, aquele tom, aquele enfeite.

A sedução foi fatal.

__Genial!  Gritava diante da TV, e repetia  genial, muito legal!

__Que foi Moleque!? Você tá louco? Replicou a mãe.

__ Não, mãe. É que o cara falou legal. Você viu?

A mãe levantou da cadeira da sala do barraco, desligou a TV, e de nada, parou em sua frente sem compreender o que estava fazendo. Olhou-o. Fitaram-se. E ela mandou deitar-se que já era tarde. Ele foi. Mas tenho certeza que naquela noite foi ele quem pulou a janela da casa do Alcides pedreiro e furtou-lhe duzentos e cinqüenta pilas que estavam de sopa sobre sua mesinha de ferramentas.









***









Amanhecia, e acordamos, todos. Foi um comentário geral. Ninguém esclareceu. Deu polícia e tudo. O povo do bairro não acreditou naquilo. E neste mesmo dia ele apareceu mostrando aos moleques da redondeza um Trinta e Oito.

__ Olha aqui, porra! Quem manda aqui sou eu, hem! Agora todo mundo aí vai comer na minha mão. E sou o Nauape, hem.

Atirou quase no pé do Languinho, menino respeitadinho na época, e no meio em que conversavam. Todo mundo correu. O comentário repercutiu que a sua mãe não acreditou.

__ Moleque!! O que você fez?? Seu louco!! Quer enfrentar, quer??

__ Cala a boca, sua vaca! Tô cansado de sua encheção de saco! Se você me encher novamente, Puta, eu encho seu Cu de bala, piranha!

Os olhos amendoados exprimiam cólera. Empunhou a arma, exibiu-a à mãe, que, toda aterrorizada, envergava o corpo, da cintura para cima,  todo para trás, como que para estar longe do cano da arma e do seu alcance de fogo.

__Não faz isto, Nauape! Não faz! Cadê seu respeito, filho?

E aos gritos rangia do modo que um cão feroz faz a um invasor estranho, demonstrando dentes e raiva.

__Respeito? Você nunca me respeitou, sua vaca! Pensa que meu ouvido é padre para ouvir o que quer. Ou que é privada? Pensa?

__Não... Não, filho!

E já rumava de fasto procurando as paredes do barraco com as mãos.

__Olha. Você vai ver! Mais um pio no meu ouvido, você tá enterrada, hem. Só mais um, hem.

Voltou da ameaça à mãe, e baixando a cabeça com a arma ainda empunhada disse sem querer fitá-la, que, junto à parede, se entregava a um pranto convulsivo. Quis apaziguar a mãe:

__Só vou cumprir aquela promessa, hem. É a toda segunda-feira, não é? Bem, já é muito, pode ter certeza. Agora, não me encha mais o saco. Ouviu?

As relações com a mãe a partir disso de certo que mudaram. A velha até então com  suas  cinco décadas de anos, rijos por ser pobre, mas acabados por ser um ser humano, já não saía mais à rua, a não ser por  trabalho. Nunca mais para passeio e conversas com vizinhos. Não era a mesma. Definhou-se de desgosto e maltrato, como o dito em linhas anteriores. Talvez esteja com os santos e orixás, ou com  Jesus.

Amém.






***







___ Olhem aqui. Prestem atenção! Prestem atenção. Moranga, você desce pelo muro, e me espera quietinho, que eu pularei por aqui. O Languinho fica na retaguarda. Oh... Languinho... Se aparecer alguém, meu véio, é para atirar, hem! Nós vamos estar lá dentro, e as coisas são foda se der trela.  Sem comédia. Sem conversa. Não paga sapo não, hem. Se não vai ter comigo. Vai lá!

E desceram as encostas do muro. E as armas atentas atrás de defesas, de mato, postes. Era a casa de um bacana, filho de um português que herdara terras e tocava adiante esta vida dura para todos. Um senhor latifundiário. Sem mais nem menos, um latifundiário. Deu certo, deu certo. Caíram para dentro da casa com facilidade. Não era comum numa cidade de interior, de desigualdades acentuadas, mas de interior, haver assaltos freqüentes,  e de grande envergadura. Acontecera, no máximo, por uma só vez, de surgir alguém batendo na porta da delegacia por terem-lhe subtraído duzentos e cinqüenta pilas.

Surraram que surraram o português dos cãs, que, amarrado  já à cadeira da sala-de-estar de sua casa-grande do centro da cidade, gemia que gemia por não poder proferir socorro, com a boca entupida dum trapo de cuecas. Mulher e filhas para os quartos trancados à chave.

Nauape e os companheiros, aliciados, bateram-se para os lados da Esperança. Os bolsos dos xortes inflados de sorte e logro.




***




A aurora multicolor surgiu toda impressionada.  Com polícias dando de cima na Vila. Até eu, confesso, tive medo, quando me vieram dois homens uniformizados e rebombaram suas vozes de perguntas acerca do paradeiro de três moleques: dois branquinhos, um de cabelos caracolados, o outro cabelo tigela; e por um outro negrinho sarará de olhos amendoados. Disse que nada sabia, e que não os conhecia, como assim fizeram todos dali. Os polícias miraram-se, proferiram palavras inaudíveis a mim, agradeceram e desceram a viela barrenta.

Não deu no Jornal Nacional este crime de assalto. A cidade era muito pequena, e, sendo pequena, fica para trás e perde lugar para outras que são maiores, de população superior. Foi assim que o Nauape pensou.

__ Porra, não saiu na Globo, poxa! Olouco, meu! A gente rouba o cara mais rico daqui, e nem uma filmagem. Puta que pariu! Eles vão ver...

Correu atrás de alguém que soubesse escrever. Aí que entro na história. Alguém indicou-me-lhe. Naquele mesmo dia, ouvi bater na porta que prontamente atendi. Era Nauape com uns moleques que entraram soberanos de si pela minha varanda já perguntando sem pressão:

__ É você quem escreve, compadre?

__Sou, sim, senhor.  proferi um senhor com medo, mas confesso que, depois, no meio da conversa, estive mais tranqüilo do que agora, que estou delatando-lhe esta história, seu moço. Ele continuou por dizer logo o que gostaria.

__ Você assiste a Globo? Acho que sim, né? Eu preciso que você escreva uma carta para aqueles cara lá. Que você explique que o maior ladrão do Brasil está em Vila Esperança. É só.

Eu respirei. Impressionado, lógico. Com aqueles rapazes mal-encarados olhando, sem saber o que pensavam. Fui Curto. Não procurei enrolar a conversa para passar o tempo.

 __Tudo bem, senhor. Eu faço.

Ele concluiu humildemente:

__Preciso para hoje. Tudo bem?

__Sim. Sem problemas.

__Obrigado.

Perguntou-me quanto era por aquilo, eu acabei por não cobrar. Que bom seria ter alguém assim famoso por aqui nesta vila, mesmo que pelo modo culturalmente errado de trabalhar. Sim, claro. O roubo é um serviço, marginalizado, mas é.

Passei duas horas escrevendo a carta que requis muita atenção. O trabalho foi pouco. Eu já escrevera poeminhas simples, contos sem muitas complicações e cartas para outros analfabetos dos muitos que aqui ainda há. A carta foi formal, quase como uma comercial. Pedia gratamente a presença da imprensa para tomar nota da emersão do maior ladrão de todos os tempos. E que, o maior ladrão não estava no Rio, e nem em São Paulo, mas estava era na Vila Esperança.

Em doze dias fomos correspondidos. Na carta de resposta notei descaso nas poucas linhas. Pediram para que esse Nauape esperasse  criar cacife e que havia muitos deste tipo na fila; e que ladrão não manda carta, ele age enfim.

Aprontei a correspondência e expliquei-a a Nauape, que, sumariamente rasgou:

__Filhos das Puta. Ah! Eu vou arrumar para estes caras. Ah! Se vou.

O Rapaz pegou na arma, já era uma pistola, comprada com o dinheiro do último assalto. Gritou pelos companheiros, aliciados:

__Hei! Zoaram nós, pomba! Temos que provar quem é que somos, porra! Vamo, vamo!!!

Partiram dali , da frente daquele casebre de tábuas, direito para o centro. A tardinha da segunda-feira se escondia vagarosa e  tímida. Lá em cima, no céu, o sol se punha medroso; nuvens escuras rumavam para uma última nesga da abóbada celeste descoberta. Eu fiquei quando eles se foram. Tentei dormir.

***
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Quem pensa que ele roubou, que ele assaltou, tudo isto é mentira. Nem foi Latrocínio.

A casa do prefeito era uma casa-grande do centro. Muros altos e segurança por todo canto. Torres com câmaras que registravam quem entrava e quem saía. Que culpa tinha o prefeito, eu não sei, eu não sabia. Mas que faltava o asfalto prometido na Vila desde as eleições, faltava. Ouvi comentários que, depois do incidente, ele já tinha suprimido três seguranças do portão frontal, que jazeram ali, na calçada, sem chance a revide. E na porta da sala, uma antessala, pequena recepção, o Senhor prefeito descia as escadas que davam para sua alcova no piso superior, preocupado dos barulhos de estampidos soados segundos antes. Este não teve nem conversa prévia de apaziguamento. Caiu sem mesmo suspirar com um balaço que rebentou sua testa franzida a rugas.

O sentimento de fama era tanto que deu cabo até dos cães presos e indefesos no canil. No prazo de cinco minutos, uma família toda virara além, e, Nauape, todo sisudo e satisfeito, batia-se, sob chuviscos, para a Vila Esperança.




***



As sirenes piscavam; High Lights acesos. Os polícias desta vez, como pareciam, meu deus, desta vez vieram decididos. Casa a casa, casebre a casebre, barraco a barraco, na chuva espessa que caía e lavava o chão, e enlameava viaturas, pés e coturnos.  Passos e gritos.

__É a ordem! Saiam das casas com as mãos para cima! Saiam! Saiam!

Tiros que atormentavam. Batida, revista, pente fino.

Um Homem, soldado, comprido, calmo, delgado e forte empunhava uma Carabina .40. Ele olhava de um lado a outro, barraco a barraco a ver, como os demais polícias, se via um moleque negrinho, cabelos sarará e olhos amendoados.

A chuva contínua e sempre, caía. Onde estava o Menino Nauape? Onde?

Minha casa fora revistada. Eu todo banhado, pois tive de esperar lá de fora, resolvi esperar o fim daquela revista, sob chuva. Os polícias estressados gritavam a cada barraco inocente passado.

__ Cadê aquele desgraçado, porra! Cadê!

E avançavam em subida no escuro da noite lamacenta daquela segunda-feira.




Nauape já pensava consigo, sozinho e detrás de um porre de papelões do casebre do Zé do Papel:

__Droga! Os polícia tão subindo. Logo me pegam, caralho!

Se saía, de certo que o perceberiam ao mover-se na disparada rumo ao terreno baldio. Ainda mais com aquela veste alva e reluzente do banho que a água que descia sem perdão deixara. Pensou, acho. Repensou. Precisava sair. Fugir dali. O perigo nunca antes sentido trazia o medo jamais, também, sentido. Nauape era corajoso. E era homem, pois que já vestia as promessas de sua mãe.

___Preciso sair. Preciso Fugir. Eles me pegam. Eles me Matam. Eles fazem. Eles são cruéis – pensava, acho.

Eu acompanhava a campanha, como todo o povo, que estava atrás. As viaturas rangiam. Barcas de ar infernal. Pintadas de cores do estado. Os polícias com suas boinas pretas e cheias de respeito chegavam perto. Chegavam . Chegavam perto.

Nauape, detrás dos papelões, ligeiro, despia-se. Ligeiro, despia-se. É mesmo. Aquele corpo negro na noite negra, ninguém perceberia. Aquele corpo negro, ninguém perceberia, quando saísse correndo. Seria difícil mirar alvo. Seria fácil escapar aquele corpo negro na noite negra.

Atirou as vestes já despidas, quiçá sua proteção, e no que levantou alternou as pernas finas e ligeiras que compunham seus cinqüentas e dois quilos. Ligeiro e nu, vencia o barro, a chuva e os projéteis invisíveis inexatos que resvalavam-lhe o esboço do corpo magro. Venceria, venceria. Se não fosse o homem calmo. O homem calmo, comprido, delgado e forte empunhara a Carabina .40 e estacara-se estando imóvel entre os demais fardados que desesperados corriam e disparavam. Num seu único disparo o balaço explodia-lhe os miolos, pela nuca, e já se viam choros e o corpo nu atolado, de bruço, no barro, em sangue e pingos de água que lavavam o chão e crivavam a lama.


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___ Hoje vem a Globo, seu moço. Hoje veio a imprensa. E esta aqui é a foto de Reinaldo Nauape de Jesus. O moleque que quis ser famoso, e um acidente impediu-o de sê-lo.

Um Filho

Meu filho tem a cara do pai. Olhos clarinhos sorridentes, nariz que ameaça ser adunco; cabelo de anjo. Vive a sonhar e a imaginar as riquezas materiais que não tem. Damo-nos as mãos numa harmonia íntima, palma a palma, sinto-lhe quente e somos um amor de eternidade. Dói quando rompe na noite silêncio, quer brincar ou porque se sujou, mas o hilário sorriso quase sem dente – apenas os incisivos – faz valer a noite. Seu riso doce quando faço-lhe cócegas contamina a casa com seus primeiros passos vacilantes e o esperado primeiro “Papai”. E incrivelmente nas constipações da vida em que espirra, eu, mal-estar.
Caminho gerreiro com ele por estádios onde joga minha equipe predileta. Visto-lhe camisas, sem que ainda saiba o significado; canto-lhe o hino. Combinamos bem um com outro. É como o encaixe perfeito de um cerrar de punho: os dedos da mesma mão e do mesmo corpo, sempre diferentes, ficam-se acoplados. O vácuo e a matéria.
Meu filho cresce à percepção dos olhos. Faz-se um ótimo aluno. Ótimas notas. Argumenta, cria, recria, moraliza, e sabe que a perfeição é inumana. Conto-lhe segredos de pai para afinidade, conquisto-o. Ensino-lhe o mundo geóide, a ser cortês e humano, o nó de gravata, que Deus existe e peço-lhe perdão, não obstante, ensino-lhe a pedir como a perdoar também. É deslumbrante vê-lo ver quadros. As cores serenam seus olhos grandes acesos. Meus olhos, seus olhos. Diamante de mil faces em que cada tom reflete o mundo. Explico-lhe nada mais que a verdade, e que sonhar é gratuito, a defender-se das armadilhas da vida. De mãos pensas, admiro-lhe a idiossincrasia.
Tem certa mania de olhar fixo e pensativo, inerte no tempo e coça as costas à estronca de parede: herança do avô. É o esforço supremo e essencial da juventude. Meu filho: amigo de todos. Ama os cães e admira os pássaros. Nas vésperas de natal sempre a esperar uma estrela cadente e finge dormir para um pedido. Acha a política suja e a religião um carro velho atolado na lama do tempo. Chora pela violência, impacienta-se imaturo.
Engraçado é dar com ele a entender uma flor como um réquiem; a ter pena das formigas e das baratas que vivem subumanas; e dos fungos parasitas que crescem desesperadamente na casca das árvores dos jardins públicos.
Eu faço um pedido a meu filho de jamais esquecer-se das paixões de um pai, dos segredos, das tolerâncias e de cuidar-me ao fim da vida, quando numa cama de erros, inválido, já com netos, talvez cego, não poder senti-lo em homem.
É já tarde. Num átimo particular e secreto, um insuportável e incomensurável orgasmo — fogo-fátuo — despeço meu filho, meu filho onânico: dou descarga e ele vai-se saudoso entre irmãos.


Amanhã faço outro.

Um dia sem Branca

Ao acordar, não havia o que fazer senão nutrir o costume sobre a mesa com o velho pão me acompanhando fielmente às manhãs. Começo a pensar, entre uma migalha e outra estendida sobre a toalha-de-mesa, o que fazer? Mais um dia diante de mim se abrindo, os primeiros minutos, os primeiros segundos. Em meio a um embriagar de sono e despertar continuo a pensar: ___ O que fazer? Deito um olhar preguiçoso para fora da janela: o mundo corre. Alguém lá distante caminha. O que não me interessa é aonde vai. O que fazer? A TV diz tolices e assuntos pueris. O rádio faz rir. Não quero rir. Algum livro poderia servir companhia, Mas... O que ler? Sorrir com Oswald? Chorar com Varela? Apaixonar-me com vinicianos? Ensaios políticos cairiam bem. Algo não permite que me levante e vá à instante buscar o livro. Não! É melhor fazer o que o coração diz. O que ele está dizendo? Não quer conversa hoje, parece que dorme. Levanto e me olho ao espelho. O rosto amarrotado dominado pela questão: ___O que fazer? Tomar um gás até ao centro; passear sem rumo; ter alguém com quem dizer a angustia que sinto?

O que sinto? Não, angústia não. Há algo em que se pensar. Passo pela gaveta da escrivaninha. Procuro qualquer coisa nova esquecida no tempo. O que há de novo pelo tempo? Há quanto tempo não visito a gaveta? Abro-a. Papéis amontoados sorriem para mim. Devem pensar: é duro não saber o que fazer... Uma música entra pelas janelas, meus poros não entendem, mas meus ouvidos são atentos, embora não alcançam o pé da pronuncia. Recosto-me na janela e debruço os cotovelos que me apóiam o corpo cansado de despertar. A música pára. Não querem que ouça a não ser o silêncio pelo corredor. Quem? É preciso abandonar esta casa o quanto antes. Uma fome me interrompe a fuga. O que comer? Antes de comer imagino o que comer. Onde está a comida? É preciso cozer algo que está pela casa. As botas não se comem. Sequer as cuecas penduradas no cabideiro. Na geladeira ovos dormem. O que fazer? Omelete? Fritura? O que fazer? Estou gordo e gástrico. Vou e volto, volto e venho. Passo ante passo. A muda cozinha amiga ri de mim, de meu estado “cima do muro”. Até ontem passava alguém aí de frente. Seria bom ter alguém com quem se confessar. Mas confessar o quê? Se não tenho problema, sou perfeito. Nenhum mal me acomete... É o telefone tocando. Ah! Desta vez deu certo. Que falta me fazia esse aparelho desprezado...! Dois trim-trim e pára de chamar. Pelo menos sei que há um telefone que eu possa chamar. Mas... Telefonar, telefonar para quem? 190, seria interessante forjar um assalto a mim, depois desmentiria tudo. Deve haver algum policial legal que me entenda e me dê conselhos. Aconselhar-me de quê? Porquê? Qual o problema? Meus dedos tremem sobre as teclas. Teclo um, nove, o três dá no bombeiro. Poderia dizer que o banheiro está em chamas. Não, o que está em chamas na realidade? Corajoso aperto o três. Segundo depois: ocupado. Droga, deve haver alguém igual a mim ainda? O que fazer? Tentar de novo e nutrir meu impulso? Desligo o aparelho. Passeio pelo corredor que se ri. Grito: ___O que fazer?? Ele diz: ___Fazer o quê??

Na sala há TV, rádio, vídeo e Cds para ouvir-se. Corro o dedo sobre um qualquer. É um Axé de Ivete. CD voa? Voa pela janela desaparecendo. O outro Iron: sai pulando. O outro Tribalistas: fique aí. O outro Roberto Carlos: não estou péssimo. O outro é brega. Esse romântico demais. Aquele não. Nenhum não. Acabam-se os CDs. Não há nada novo? A música está por maus momentos, penso. Ou eu estou? Visito a janela. O dia está convidativo. Há mais gente pelo lado de fora do que um simples homem caminhando sem aonde. É preciso fugir daqui senão virarei louco! Rápido pulo a janela e tomo o fora como um novo amigo. Entre um “estou livre” daqui e um “estou livre” dali, dois caras de astronauta me colhem com força:


__Calma, Rafael, Calma! Hoje é dia de visita.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A CANETA

Há um modo muito fácil de se matar alguém: tirar-lhe o pão: vergonha sulfúrica contra matéria mole. Postura quebrável como vidro. Reputação vulnerável. Qualquer deslize o chão tem braços abertos. Uma caneta mata, suicida, causa-mortis dos titubeantes.

Atravessou a via. Estacou-se. Pensou. Adiante fazia-se frondoso e austero a massa maciça de cimento e ferro, sem coração como a caneta. A conta na mão. Dez anos de firma. Três filhos. O que vai ser? Contas. Vergonha. Reputação.

Subir. O porteiro nada nota. Era mais um dia. Subiu. O elevador é súbito. As escadas nem sempre. Preferiu-as. Subiu. Passo a passo. Pensava. Voltar: vergonha. Seguir, solução. Faxineira: __ Bom dia! Teve de sorrir um bom dia amargo. Fingiu.  Subiu. Homem de terno: ___ Bom dia! Baixo respondeu. Dados minutos. O azul aparece-lhe.

Entorno o amargo mundo capitalista. Lá embaixo a terra comum de todos. Mergulha no azul...

Vidros de janelas, parede de concreto, vidros de janelas, parede de concreto, vidros de janelas, parede de concreto, vidros de janelas, parede de concreto, vidros de janelas, paredes de concreto, vidros de janelas, parede de concreto, vidros de janelas, parede de concreto, vidros de janelas, parede de concreto, vidros de janelas, parede de concreto, vidros de janelas, parede de concreto, calçada. 

Escuro.

Poça, fragmentos, vermelho, gente, letras, notícia, jornais.


Comoção.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Sou homem, mudo constantemente



 


Sou homem, constantemente mudo              



Mudo constantemente, sou homem


                                                     Sou homem mudo constantemente
Sou homem, constantemente mudo
                                          Sou homem constantemente mudo



                                                                         Sou homem constantemente mudo

Sou homem, constantemente mudo

 

                

 


Sou homem, constantemente  mudo     sou homem constantemente mudo   

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Primeiros Passos

Confesso que na minha infância detestava ler. Creio que aos meninos é muito mais difícil a fruição na leitura. Para falar a verdade, tenho pouca diferença com o aluno atual. Era mais preguiçoso com a leitura e a escrita do que Macunaíma - "Ai, que preguiça..." E olha que não me faltavam livros. Na estante de casa jazia a Série Vaga-Lume. Adorava, na verdade, era ler com os olhos alheios. Quando dispunha de tempo, quem no-los lia era papai. Mas na maioria das vezes, era a bisavó Eleonora a maior incentivadora. Era um a comédia vê-la ler. O sofá da sala da casa velha de madeira do Parque Ibirapuera, em Tupã, era seu trono.  Exímia ledora, a bisa escolhia o livro a dedo. Era "Os Segredos de Taquara-Póca", de Francisco Marins.

Mineira que era, tinha no sangue aquela verve da leitura, o sotaque que cheirava a café e a entonação era como um leite morno: a combinação perfeita. Sentado no sinteco que recobria o assoalho da sala, observava-a fazer caretas, praguejar contra os vilões, enaltecer os honestos. De quando em quando, obedecendo aos trechos genuinamente românticos, a bisa depositava ao coração a mãozinha direita enrugada, cheia de sardas do tempo.

Era flexível como convém ao artista de palco. Engrossava a voz, imitava os bichos, os ruídos, as onomatopeias que surgiam pelo percurso. E eu, inconscientemente, sob sensações inefáveis, mergulhava numa catarse profunda...

Mas nada é eterno nesta vida: ela se foi quando eu tinha 12. Sua partida significou-me um caminho a seguir. Grande parte de mim em sala de aula é minha bisavó. Estas reminiscências me perseguem como bons espectros. Por isso sou velho. Por isso sou arcaico.  Mas quem não gosta de um cafezinho quente e de um leite tirado no dia, numa manhã outonal fresca como esta, que me faz tomar leite e relatar um saudoso passado?

TRAJETOS

Ler e escrever é lutar contra gigantes e muitas vezes acabamo-nos gigantes ou anões perto de nossas leituras, de nossas produções. É que ler é produzir um passado fecundo para a posteridade. Gostoso é viver trajetos na leitura. Tenho, portanto, meus trajetos.

Apaixonar-me por Clarice na juventude fez-me mergulhar num poço de introspecção. Quem me resgatou foi uma plêiade com Drummond, Mário, Oswald e Bandeira. Absorto às ideias de cá resolvi cruzar o mar, encontrei com um monte de Pessoas, dentre as quais, posso revelar paixões sinceras  por Álvaro, Ricardo e um camponês chamado Alberto. Mas foi Alexander Search, que trocava cartas com um tal Fernando, que crescera parte da infância em Durban (África do Sul), que me apresentou a ele numa Tabacaria, cuja porta tinha suspensa uma cruz, insinuando a morte do dono, o Alves. Fernando me puxou à rua, conheci um poeta com nome de Sá Carneiro. Atravessei a Península Ibérica num cavalo voador e deixei os fantasmas Bocage, Eça, Antero, Cesário. Mas ao passar pela fronteira arrumei um amor louco. Florbela Espanca espancou-me com versos. Na conexão Madri-Paris peguei a máquina do tempo que me teletransportou à época de Dom Quixote. A máquina louca do tempo ziguezagueando na boemia das palavras fez-me encontrar com Dumas e Victor num bar. Mas Mallarmé lançou-me um poema hermético para decifrar. Na esquina, um jovem de olhos azuis chamado Rimboud apontou na direção de Londres e, através da máquina do tempo, fui ter com Shakespeare. Na volta cruzei a Mancha rumo à Rússia, mas, na Alemanha, um certo Fausto quis que eu fizesse um pacto com Mefistófeles. Nada acertado. Dei-me com Tolstoi e Dostoievski numa Noite Branca. Com a máquina do tempo pude conhecer Kafka metamorfoseado em barata. Deu dó. Na Itália comi macarronada com Morávia e Umberto. Senti saudade da América e fui viver com Neruda em Isla Negra. Atravessei a Cordilheira dos Andes rumo ao Brasil. Fiz parada na Argentina, lá estava Ferreira Gullar exilado escrevendo seu Poema Sujo. Mas foi no Uruguai que comi  buenas parrillas com Mario Benedetti que me indicou as borboletas do Jardim de Mario Quintana.  Subi para Porto Alegre e conheci no Salgado Filho, prestes a tomar um voo, Veríssimo e Scliar.  Este ia ao Rio, o outro a São Paulo. Mais adiante, cheguei numa noite escura e de névoa a Curitiba. Procurei pelo vampiro que nunca dá as caras. Sequer um cemitério de Elefantes encontrei. Apareceu-me um mestiço de polaco vestindo  Quimono, levava bigode espesso e falava sucinto e preciso como um Haicai. A inflação e o caos brasileiros fizeram-me tomar novamente a máquina do tempo e viajar a Baltimore (USA). Poe escrevia, lugubremente, O Corvo: Never More! Contei-lhe sobre um futuro Dan Brown. Ele riu funestamente: “ganhará muito dinheiro...”

Peguei um voo direto ao Rio e encontrei um louco: era Lima Barreto bebendo cachaça e conversando com Policarpo Quaresma em Tupi-guarani. Mas um jovem velho, mulato e barbudo chamou-me a atenção. Seu nome era Machado. Tinha em seus livros vários estudos sobre a alma do ser humano, inclusive a minha alma peregrina de viajar por épocas. Só não era mais completo porque era humano. Li, reli, conversei com ele, pouco entendi. Cheio de raiva, resolvi ser trash. Vim tomar cerveja com um velho safado chamado Bukowski e fumar charuto com Álvares e Byron.

Exausto de algumas viagens chego à conclusão de que com minhas leituras eu me sinto quase um Fernão de Magalhães ou um Phileas Fogg: dou a volta ao mundo, de todas as épocas, sem sair de minha poltrona.