sexta-feira, 29 de maio de 2026

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quarta-feira, 12 de março de 2025

Homem não chora

 


De repente viro-me pra trás e me dou conta de que sou filho caçula de um casal pobre. O terceiro filho, “o mais bajulado, como eu”, dizia a titia Inês, que também era a caçula dos meus avós maternos. Na casa velha de madeira onde engatinhei e aprendi a andar, cômodos minúsculos, o chão de vermelhão lustrado refletia os raios solares que penetravam pelos vãos das tábuas puídas pelo tempo. A vida corria.

A gente crescia vendo a rua de terra.  Galinhas soltas bicavam grãos cozidos de arroz depositados pelos ralos das pias dos moradores a vila Camargo.

Meus irmãos andavam descalço pelo bairro atrás de papagaios. Papai era soldado PM e eu não sabia se minha mãe era enfermeira, lavadeira ou cantora: chegava de manhã vestida de branco, enfiava a barriga no tanque de lavar roupas e varava o dia cantarolando a torcer e bater a roupa suja da filharada.

O irmão mais velho cismou de tomar emprestado uma manga do quintal do vizinho. O fiel, corda de nylon dura que se prende à empunhadura do revólver, ardeu naquele dia, Vapt!! Vapt!! 

Curvas de nível brotavam impetuosamente da pele.

__Homem que é homem não rouba, rapaz!

__Mas eu não roubei, papa. Só peguei emprestado!

 Vapt!!!

O irmão do meio advogou o mais velho. O fiel cantou-lhe na ilharga.

_Homem não mente!

A surra de fiel de revólver era a pior tortura. A manga docinha virara fel.

Tempos depois eu ganhava um carrinho de lata impulsionado pelos pés. Na descida da rua de terra o carrinho embalava, a poeira subia forte. Eu era Piquet.

O sol bravo castigava os dorsos morenos, o carrinho descia seco. Pedra no caminho, no meio do caminho tinha uma pedra. Capotamento, o ombro esfolado, sangue!

O berreiro aberto em meio aos soluços. A vizinhança acudia o menino acidentado. O papai pegou da mão, arrastou o carrinho de lata, claramente avariado. Olhou-me no olho:

__ Homem não chora!

 O mertiolate ajudava a afugentar os espíritos. Tingia a pele e a ferida, como a mácula temporária de nossos percalços.

O que a gente aprende. O tempo passa, as ruas de asfalto, as mães cuidam do filho como do dinheiro da poupança. O coração parece ter aumentado. Hoje em homem se meu filho chora, a gente sente o coração roubado e chora também.

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

RETRATO DE SALA: 2ª SÉRIE A

 

Bastos, 13 de novembro 2024

 

Antes que o ano letivo acabasse, eu precisava escrever este retrato de sala. É com muito carinho que dedico a todos meus alunos da 2ª Série A da Escola Tsuya Ohno Kimura, escola que entrou na minha vida e dificilmente deverá sair.

 

Acordo e faço minhas abluções numa quarta-feira calorenta de derreter asfalto. Preparo-me para os trabalhos. Arrumo a mochila e sigo para a Escola. Chego um pouco atrasado, aliás, este é o meu problema crônico. Nunca fui de chegar adiantado. Conheci um certo professor que me disse: “é melhor chegar tarde do que nunca!”; eu por minha vez refaço a frase: “é melhor chegar atrasado e dar uma boa aula do que chegar adiantado e não ter a importância de um pardal na vida do aluno...”

Pois bem. Foram pardais que avistei ao chegar, esvoaçando o teto do pátio, os beirais do prédio.  Sento-me costumeiramente na fileira de banco sustentada à parede entre as salas 8 e 7, não mais para admirar pardais. Entretenho-me com professores, enfrento  reuniões, lido com papéis, converso com papéis; aporrinhações do oficio; mensagens eletrônicas .  O sinal me pune os tímpanos. É hora da aula.

Subo as escadarias velhas da escola com minha garrafa de tereré. Passo meus olhos na vidraça que assistiu por décadas alunos e alunos passarem, num sobe e desce frenético .  A subida é uma azáfama. A barriga balança a cada degrau galgado. Dou-me de frente com a sala nº6. A mística sala nº 6 que está de frente para a Avenida Gaspar Ricardo e fita generosamente o Fórum de Bastos.  Eis-me na 2ª série A da Escola Tsuya Ohno Kimura. Mas não é um dia de aula normal, é um dia de retrato.

Corro os olhos pela fileira da porta. Um rapaz com camiseta de time de futebol já me pergunta sobre o Santos. Ele as bochechas levemente entumecidas e um olhar discreto. Fala baixo, quase sussurra. A carteira de trás está vazia, mas tem dono. Um rapaz filósofo que mais falta do que fala. Na parte de trás uma coluna vertebral torta, cabeça pendendo na tela de um celular. O dó! Ele faz parte da galerinha do Free Fire. Na sequência uma moça que adora usar bota texana, e não as descalça nem para jogar uma partida de vôlei.  No canto da parede se esconde um rapaz com camiseta do PSG, que definitivamente não gosta de estudar. Ele é amigo do rapaz da coluna envergada no celular.

 Na segunda fileira surge uma moça de cabelo liso e da boca. Ninguém nunca a ouve falar e se lhe direcionamos palavras, ele se enrubesce toda.   No fundo, bem pertinho da janela, uma moça se consola na tela do celular e as vezes liga a câmera só para se ver e se aprova a maquiagem. Entre as duas fica por ali uma moça morena macérrima que confessou em texto que a sua rotina diária está a prática de rezar o terço. Nunca me esquecei disso.

Diante de mim, na fileira do meio, dois olhinhos de pálpebras levemente fendidas se protegem atrás das lentes redondas; cotovelos apoiados sobre a mesa e dedos entrelaçados. Uma boneca chinesa de porcelana se não fosse japonesa. A aluna que fala pouco e faz demais. O professor que não se orgulhar de você, não sabe o que é dar aula.

Cabelos vermelhos, sorriso de canto de boca nos esperam. É a moça mais calma da sala, que não se separa colega jogadora de vôlei do lado direito. Gostaria de confessar que a jogadora de vôlei de cabelos cacheados (uma gracinha), a moça do cabelo vermelho e a bonequinha de porcelana, se eu tivesse uma filha um dia com a paz de espírito e o interesse que vocês têm eu seria o pai mais feliz no raio de dez quarteirões.

Por alguns segundo eu lanço um olhar pela janela e alcanço o prédio do Fórum.  Parece que toda vez que subo àquela sala nº6, o Fórum do outro lado da avenida me dá lições de existência. Parece que aquele prédio olha para escola e diz coisas como estas: é desta escola aí que sairão pessoas que talvez um dia aqui julgarão ou serão julgadas. Um calafrio me acomete  como se verdade percorresse  minha espinha dorsal.

Prosseguimos com o retrato.

 Ela não tem celular. Maldade...! Nenhuma imagem é mais marcante e digna de um retrato quanto a menina de óculos e cabelos presos que se debruça na janela para observar a rua. Parece que tem um olhar de quem está pensando em fugir.

Quando ele abre a boca, parece um berrante. Um rapaz de voz grossa que adora futebol, Chat GPT e não aceita folgados.

Ali na frente da antepenúltima fileira há duas irmãs. Quem não as conhece vai achar que realmente são de fato irmãs. De tão parecidas nas atitudes e nos gestos cheguei a achar que eram uma pessoa só. São amigas que dão de graça um sorriso invejável, às vezes, com as mãos que cobrem as bocas e rostos envergonhados.   

Atrás das irmãs fica um ser meigo, delgado, cabelos lisos e olhar tal qual Mona Lisa. Faz parte da galera do vôlei. Uma moça de futuro.  Futuro também está bem ao seu lado, a aluna que tem cara de apaixonada, mas que enche os olhos do professor com suas redações.

Na última fileira o rapaz que não seria nada sem seu celular. O que seria dele sem o chat GPT? Umbilicalmente ligado à máquina. Uma hipotética pane na internet ou uma queda na carga bateria provocariam uma depressão sem precedentes.

Atrás surge a moça mais requisitada da 2ª série A. Amiga dos banheiros e bebedouros. Convidam-na para tudo. Desde empurrar carrinho como que para as eternas reuniões que nós professores nunca sabemos.

 No meio da última fileira um rapazinho de Paulo Afonso, de sotaque marcante e olhar interrogativo. Ele se dá muito bem com uma das irmãs fileira anterior.

O rapaz que tirou férias o ano inteiro ganhou apelido de chocolate branco. No fim da fileira está sentado o rapaz que não precisa estudar porque já está rico e com o contrato assinado com o SFC.

Todos estes são as alunos que me fazem rir e chorar e pelos quais eu faço de tudo, menos hambúrgueres.

O calor persiste; meu rosto goteja.  Chega o momento em que professores e alunos são salvos pelo gongo. Uns passam pelo banheiro, outras se ajustam diante do espelho. Meus alunos (que não são só meus) me deixam. A sala se faz vazia momentaneamente, amanhã nos falaremos, quem sabe.  A aula foi um retrato tirado pela órbita de um professor canhestro, com todos os seus defeitos humanos. Por isso somos interessantes, porque somos realmente assim, imperfeitos e cheios de particularidades inigualáveis.  No fundo no fundo cada aluno retratado é uma pérola a ser lapidada, que não queremos perder nem vender nenhuma. É um investimento de vida de uma família, de um professor. Mas a vida é um negócio intrigante e controverso, plena  de reviravoltas que nos impõe o medo.

Papai do céu, queria lhe fazer um pedido. Cuide destes alunos para que cresçam e se tornem pessoas melhores, de grande sucesso. Não permita que se tornem meros pardais. Que isto valha para os faltosos que não estiveram presentes neste retrato.

Emolduro este retrato e o penduro no alto da sala nº 6. Agora podemos desligar os ventiladores e deixar que o calor e as moscas se disputem no espaço. Tranquemos a porta, apaguemos as luzes. Quero descer as escadas com uma vontade de chorar igual criança que caiu da cama. Mas há mais motivo para sorrir quando me lembro que em tudo que faço para esta turminha tem o intuito de evitar que os pardais aumentem a revoada.

 


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

À esquerda do carvalho

(Fica aqui uma das minhas traduções de um dos poemas de um dos maiores poetas da literatura hispano-americana: Mario Benedetti)

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Mas o Jardim Botânico é um parque adormecido
Onde qualquer um pode sentir-se árvore ou próximo
Sempre e quando se cumpra um requisito prévio.
Que a cidade exista tranquilamente longe.

O segredo é encostar-se digamos em um tronco
E ouvir através do ar que admite barulhos mortos
Como na Millán e Reyes galopam os bondes.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Mas o jardim Botânico sempre teve
Uma agradável propensão aos sonhos
A que os insetos subam pelas pernas
E a melancolia desça pelos braços
Até que alguém feche os punhos e a pegue.

Depois disso tudo o segredo é olhar pra cima
E ver como as nuvens disputam-se as copas
E ver como os pássaros disputam-se os ninhos.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Ah! Mas os casais que fogem ao botânico
 Já descem de um táxi ou de uma nuvem
Falam comumente de assuntos importantes
E se olham fanaticamente nos olhos
Como se o amor fosse um curtíssimo túnel
E se eles se contemplassem por dentro desse amor.

Aqueles dois por exemplo à esquerda do carvalho
(Também poderia chamá-lo de amendoeira ou araucária
Graças à minha lacuna sobre Pã e Lineu)
Falam e pelo visto as palavras
Ficam comovidas de olhá-los
E a mim não chegam sequer os ecos.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Mas é maravilhoso imaginar o que  dizem
Sobretudo se ele morde um raminho
E ela deixa um sapato sobre a grama
Sobretudo se ele tem um interior triste
E ela quer sorrir e não pode.

Para mim o rapaz está dizendo
O que se diz às vezes no jardim botânico

Ontem chegou outono
O sol do outono
E me senti feliz
Como há muito
Que linda está
Te amo
Em meus sonhos
De noite
Se escutam buzinas
O vento sobre o mar
E apesar de tudo aquilo
também é o silêncio
olhe-me assim
te amo
eu trabalho com vontade
faço contas
fichas
discuto com cretinos
distraio-me e xingo
dê-me sua mão
agora
e você sabe
que te amo
penso às vezes em Deus
bom não tantas vezes
não gosto de roubar
seu tempo
além do mais está longe
você está a meu lado
agora mesmo estou triste
estou triste e te amo
e passarão as horas
a rua como um rio
as árvores que ajudam
o céu
os amigos
e que sorte
te amo
há tempos era menino
há tempos é o que importa
o azar era simples
como entrar em seus olhos
deixe-me entrar
te amo
menos mal que te amo

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Mas pode calhar que logo alguém advirta
Que na realidade se trata de algo mais desolado
Um desses amores de tântalo e azar
Que Deus nos admite porque tem ciúmes.

Prestem atenção como ele acusa com ternura
E ela se apóia contra a casca
Prestem atenção como ele apresenta recordações
E ela se consterna misteriosamente.

Para mim o rapaz está dizendo
O que se diz às vezes no jardim botânico

Você disse isso
Nosso amor
sempre foi um menino morto
Só de momentos parecia
Que ia viver
Que íamos vencer
Mas nós dois fomos tão fortes
Que o deixamos sem seu sangue
Sem seu fruto
Sem seu céu
Um menino morto
Só isso
Maravilhoso e condenado
Talvez tivesse um sorriso
Como o seu
Doce e profundo
Talvez tivesse uma alma triste
Como minha alma
Pouca coisa
Talvez aprendesse com o tempo
A se virar
A usar o mundo
Mas os meninos  que assim vêm
Mortos de amor
Mortos de medo
Têm tão grande coração
Que se destroem sem saber
Você disse isso
Nosso amor
Sempre foi um menino morto
E que verdade dura e sem sombra
Que verdade fácil e que pena
Eu imagino que era um menino
E era apenas um menino morto
Agora o que fica
Só fica
Medir a fé e o que recordamos
O que pudemos ter sido
Para o menino que não pôde ser nosso
O que mais
Acaso quando chegue
Um vinte e três de abril e abismo
Você onde estiver
Leve-lhe flores
Que eu irei com você.

Não sei se alguma vez aconteceu com vocês
Mas o jardim botânico é um parque adormecido
Que só desperta com chuva.

Agora a última nuvem resolveu ficar
E nos está a molhar como alegres mendigos.

O segredo está em correr com precauções
a fim de não matar nenhum escaravelho
e não pisar nos fungos que aproveitam
para nascer desesperadamente.

sem prevenções viro-me e seguem
aqueles dois à esquerda do carvalho
eternos e escondidos na chuva
dizendo-se quem sabe quais silêncios

não sei se algumas vez aconteceu com vocês
mas quando a chuva cai no botânico
aqui ficam só os fantasmas
vocês podem ir

eu fico.