quarta-feira, 12 de março de 2025

Homem não chora

 


De repente viro-me pra trás e me dou conta de que sou filho caçula de um casal pobre. O terceiro filho, “o mais bajulado, como eu”, dizia a titia Inês, que também era a caçula dos meus avós maternos. Na casa velha de madeira onde engatinhei e aprendi a andar, cômodos minúsculos, o chão de vermelhão lustrado refletia os raios solares que penetravam pelos vãos das tábuas puídas pelo tempo. A vida corria.

A gente crescia vendo a rua de terra.  Galinhas soltas bicavam grãos cozidos de arroz depositados pelos ralos das pias dos moradores a vila Camargo.

Meus irmãos andavam descalço pelo bairro atrás de papagaios. Papai era soldado PM e eu não sabia se minha mãe era enfermeira, lavadeira ou cantora: chegava de manhã vestida de branco, enfiava a barriga no tanque de lavar roupas e varava o dia cantarolando a torcer e bater a roupa suja da filharada.

O irmão mais velho cismou de tomar emprestado uma manga do quintal do vizinho. O fiel, corda de nylon dura que se prende à empunhadura do revólver, ardeu naquele dia, Vapt!! Vapt!! 

Curvas de nível brotavam impetuosamente da pele.

__Homem que é homem não rouba, rapaz!

__Mas eu não roubei, papa. Só peguei emprestado!

 Vapt!!!

O irmão do meio advogou o mais velho. O fiel cantou-lhe na ilharga.

_Homem não mente!

A surra de fiel de revólver era a pior tortura. A manga docinha virara fel.

Tempos depois eu ganhava um carrinho de lata impulsionado pelos pés. Na descida da rua de terra o carrinho embalava, a poeira subia forte. Eu era Piquet.

O sol bravo castigava os dorsos morenos, o carrinho descia seco. Pedra no caminho, no meio do caminho tinha uma pedra. Capotamento, o ombro esfolado, sangue!

O berreiro aberto em meio aos soluços. A vizinhança acudia o menino acidentado. O papai pegou da mão, arrastou o carrinho de lata, claramente avariado. Olhou-me no olho:

__ Homem não chora!

 O mertiolate ajudava a afugentar os espíritos. Tingia a pele e a ferida, como a mácula temporária de nossos percalços.

O que a gente aprende. O tempo passa, as ruas de asfalto, as mães cuidam do filho como do dinheiro da poupança. O coração parece ter aumentado. Hoje em homem se meu filho chora, a gente sente o coração roubado e chora também.