Ao acordar, não havia o que fazer senão nutrir o costume
sobre a mesa com o velho pão me acompanhando fielmente às manhãs. Começo a
pensar, entre uma migalha e outra estendida sobre a toalha-de-mesa, o que
fazer? Mais um dia diante de mim se abrindo, os primeiros minutos, os primeiros
segundos. Em meio a um embriagar de sono e despertar continuo a pensar: ___ O
que fazer? Deito um olhar preguiçoso para fora da janela: o mundo corre. Alguém
lá distante caminha. O que não me interessa é aonde vai. O que fazer? A TV diz
tolices e assuntos pueris. O rádio faz rir. Não quero rir. Algum livro poderia
servir companhia, Mas... O que ler? Sorrir com Oswald? Chorar com Varela?
Apaixonar-me com vinicianos? Ensaios políticos cairiam bem. Algo não permite
que me levante e vá à instante buscar o livro. Não! É melhor fazer o que o
coração diz. O que ele está dizendo? Não quer conversa hoje, parece que dorme.
Levanto e me olho ao espelho. O rosto amarrotado dominado pela questão: ___O
que fazer? Tomar um gás até ao centro; passear sem rumo; ter alguém com quem
dizer a angustia que sinto?
O que sinto? Não, angústia não.
Há algo em que se pensar. Passo pela gaveta da escrivaninha. Procuro qualquer
coisa nova esquecida no tempo. O que há de novo pelo tempo? Há quanto tempo não
visito a gaveta? Abro-a. Papéis amontoados sorriem para mim. Devem pensar: é
duro não saber o que fazer... Uma música entra pelas janelas, meus poros não
entendem, mas meus ouvidos são atentos, embora não alcançam o pé da pronuncia.
Recosto-me na janela e debruço os cotovelos que me apóiam o corpo cansado de
despertar. A música pára. Não querem que ouça a não ser o silêncio pelo
corredor. Quem? É preciso abandonar esta casa o quanto antes. Uma fome me
interrompe a fuga. O que comer? Antes de comer imagino o que comer. Onde está a
comida? É preciso cozer algo que está pela casa. As botas não se comem. Sequer
as cuecas penduradas no cabideiro. Na geladeira ovos dormem. O que fazer?
Omelete? Fritura? O que fazer? Estou gordo e gástrico. Vou e volto, volto e
venho. Passo ante passo. A muda cozinha amiga ri de mim, de meu estado “cima do
muro”. Até ontem passava alguém aí de frente. Seria bom ter alguém com quem se
confessar. Mas confessar o quê? Se não tenho problema, sou perfeito. Nenhum mal
me acomete... É o telefone tocando. Ah! Desta vez deu certo. Que falta me fazia
esse aparelho desprezado...! Dois trim-trim e pára de chamar. Pelo menos sei
que há um telefone que eu possa chamar. Mas... Telefonar, telefonar para quem?
190, seria interessante forjar um assalto a mim, depois desmentiria tudo. Deve
haver algum policial legal que me entenda e me dê conselhos. Aconselhar-me de
quê? Porquê? Qual o problema? Meus dedos tremem sobre as teclas. Teclo um,
nove, o três dá no bombeiro. Poderia dizer que o banheiro está em chamas. Não,
o que está em chamas na realidade? Corajoso aperto o três. Segundo depois:
ocupado. Droga, deve haver alguém igual a mim ainda? O que fazer? Tentar de
novo e nutrir meu impulso? Desligo o aparelho. Passeio pelo corredor que se ri.
Grito: ___O que fazer?? Ele diz: ___Fazer o quê??
Na sala há TV, rádio, vídeo e Cds
para ouvir-se. Corro o dedo sobre um qualquer. É um Axé de Ivete. CD voa? Voa
pela janela desaparecendo. O outro Iron: sai pulando. O outro Tribalistas:
fique aí. O outro Roberto Carlos: não estou péssimo. O outro é brega. Esse
romântico demais. Aquele não. Nenhum não. Acabam-se os CDs. Não há nada novo? A
música está por maus momentos, penso. Ou eu estou? Visito a janela. O dia está
convidativo. Há mais gente pelo lado de fora do que um simples homem caminhando
sem aonde. É preciso fugir daqui senão virarei louco! Rápido pulo a janela e
tomo o fora como um novo amigo. Entre um “estou livre” daqui e um “estou livre”
dali, dois caras de astronauta me colhem com força:
__Calma, Rafael, Calma! Hoje é
dia de visita.
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