Bastos, 13 de novembro 2024
Antes que o ano letivo acabasse, eu precisava escrever este
retrato de sala. É com muito carinho que dedico a todos meus alunos da 2ª Série
A da Escola Tsuya Ohno Kimura, escola que entrou na minha vida e dificilmente deverá
sair.
Acordo e faço minhas abluções numa quarta-feira calorenta de
derreter asfalto. Preparo-me para os trabalhos. Arrumo a mochila e sigo para a
Escola. Chego um pouco atrasado, aliás, este é o meu problema crônico. Nunca
fui de chegar adiantado. Conheci um certo professor que me disse: “é melhor
chegar tarde do que nunca!”; eu por minha vez refaço a frase: “é melhor chegar
atrasado e dar uma boa aula do que chegar adiantado e não ter a importância de
um pardal na vida do aluno...”
Pois bem. Foram pardais que avistei ao chegar, esvoaçando o
teto do pátio, os beirais do prédio. Sento-me
costumeiramente na fileira de banco sustentada à parede entre as salas 8 e 7, não
mais para admirar pardais. Entretenho-me com professores, enfrento reuniões, lido com papéis, converso com papéis;
aporrinhações do oficio; mensagens eletrônicas . O sinal me pune os tímpanos. É hora da aula.
Subo as escadarias velhas da escola com minha garrafa de tereré. Passo meus olhos na vidraça que assistiu por décadas alunos e alunos passarem, num sobe e desce frenético . A subida é uma azáfama. A barriga balança a cada degrau galgado. Dou-me de frente com a sala nº6. A mística sala nº 6 que está de frente para a Avenida Gaspar Ricardo e fita generosamente o Fórum de Bastos. Eis-me na 2ª série A da Escola Tsuya Ohno Kimura. Mas não é um dia de aula normal, é um dia de retrato.
Corro os olhos pela fileira da porta. Um rapaz com camiseta
de time de futebol já me pergunta sobre o Santos. Ele as bochechas levemente
entumecidas e um olhar discreto. Fala baixo, quase sussurra. A carteira de trás
está vazia, mas tem dono. Um rapaz filósofo que mais falta do que fala. Na
parte de trás uma coluna vertebral torta, cabeça pendendo na tela de um celular.
O dó! Ele faz parte da galerinha do Free Fire. Na sequência uma moça que adora usar
bota texana, e não as descalça nem para jogar uma partida de vôlei. No canto da parede se esconde um rapaz com
camiseta do PSG, que definitivamente não gosta de estudar. Ele é amigo do rapaz
da coluna envergada no celular.
Diante de mim, na fileira do meio, dois olhinhos de
pálpebras levemente fendidas se protegem atrás das lentes redondas; cotovelos
apoiados sobre a mesa e dedos entrelaçados. Uma boneca chinesa de porcelana se
não fosse japonesa. A aluna que fala pouco e faz demais. O professor que não se
orgulhar de você, não sabe o que é dar aula.
Cabelos vermelhos, sorriso de canto de boca nos esperam. É a
moça mais calma da sala, que não se separa colega jogadora de vôlei do lado
direito. Gostaria de confessar que a jogadora de vôlei de cabelos cacheados
(uma gracinha), a moça do cabelo vermelho e a bonequinha de porcelana, se eu
tivesse uma filha um dia com a paz de espírito e o interesse que vocês têm eu
seria o pai mais feliz no raio de dez quarteirões.
Por alguns segundo eu lanço um olhar pela janela e alcanço o
prédio do Fórum. Parece que toda vez que
subo àquela sala nº6, o Fórum do outro lado da avenida me dá lições de existência.
Parece que aquele prédio olha para escola e diz coisas como estas: é desta escola
aí que sairão pessoas que talvez um dia aqui julgarão ou serão julgadas. Um
calafrio me acomete como se verdade
percorresse minha espinha dorsal.
Prosseguimos com o retrato.
Ela não tem celular.
Maldade...! Nenhuma imagem é mais marcante e digna de um retrato quanto a
menina de óculos e cabelos presos que se debruça na janela para observar a rua.
Parece que tem um olhar de quem está pensando em fugir.
Quando ele abre a boca, parece um berrante. Um rapaz de voz
grossa que adora futebol, Chat GPT e não aceita folgados.
Ali na frente da antepenúltima fileira há duas irmãs. Quem
não as conhece vai achar que realmente são de fato irmãs. De tão parecidas nas
atitudes e nos gestos cheguei a achar que eram uma pessoa só. São amigas que dão
de graça um sorriso invejável, às vezes, com as mãos que cobrem as bocas e
rostos envergonhados.
Atrás das irmãs fica um ser meigo, delgado, cabelos lisos e
olhar tal qual Mona Lisa. Faz parte da galera do vôlei. Uma moça de futuro. Futuro também está bem ao seu lado, a aluna que
tem cara de apaixonada, mas que enche os olhos do professor com suas redações.
Na última fileira o rapaz que não seria nada sem seu
celular. O que seria dele sem o chat GPT? Umbilicalmente ligado à máquina. Uma hipotética
pane na internet ou uma queda na carga bateria provocariam uma depressão sem
precedentes.
Atrás surge a moça mais requisitada da 2ª série A. Amiga dos
banheiros e bebedouros. Convidam-na para tudo. Desde empurrar carrinho como que para as eternas reuniões que nós professores nunca sabemos.
No meio da última fileira um rapazinho de Paulo Afonso, de sotaque marcante e olhar
interrogativo. Ele se dá muito bem com uma das irmãs fileira anterior.
O rapaz que tirou férias o ano inteiro ganhou apelido de
chocolate branco. No fim da fileira está sentado o rapaz que não precisa
estudar porque já está rico e com o contrato assinado com o SFC.
Todos estes são as alunos que me fazem rir e chorar e pelos
quais eu faço de tudo, menos hambúrgueres.
O calor persiste; meu rosto goteja. Chega o momento em que professores e alunos são salvos pelo gongo. Uns passam pelo banheiro, outras se ajustam diante do espelho. Meus alunos (que não são só meus) me deixam. A sala se faz vazia momentaneamente, amanhã nos falaremos, quem sabe. A aula foi um retrato tirado pela órbita de um professor canhestro, com todos os seus defeitos humanos. Por isso somos interessantes, porque somos realmente assim, imperfeitos e cheios de particularidades inigualáveis. No fundo no fundo cada aluno retratado é uma pérola a ser lapidada, que não queremos perder nem vender nenhuma. É um investimento de vida de uma família, de um professor. Mas a vida é um negócio intrigante e controverso, plena de reviravoltas que nos impõe o medo.
Papai do céu, queria lhe fazer um pedido. Cuide destes alunos para que cresçam e se tornem pessoas melhores, de grande sucesso. Não permita que se tornem meros pardais. Que isto valha para os faltosos que não estiveram presentes neste retrato.
Emolduro este retrato e o penduro no alto da sala nº 6. Agora podemos desligar os ventiladores e deixar que o calor e as moscas se disputem no espaço. Tranquemos a porta, apaguemos as luzes. Quero descer as escadas com uma vontade de chorar igual criança que caiu da cama. Mas há mais motivo para sorrir quando me lembro que em tudo que faço para esta turminha tem o intuito de evitar que os pardais aumentem a revoada.