quinta-feira, 30 de julho de 2015

TRAJETOS

Ler e escrever é lutar contra gigantes e muitas vezes acabamo-nos gigantes ou anões perto de nossas leituras, de nossas produções. É que ler é produzir um passado fecundo para a posteridade. Gostoso é viver trajetos na leitura. Tenho, portanto, meus trajetos.

Apaixonar-me por Clarice na juventude fez-me mergulhar num poço de introspecção. Quem me resgatou foi uma plêiade com Drummond, Mário, Oswald e Bandeira. Absorto às ideias de cá resolvi cruzar o mar, encontrei com um monte de Pessoas, dentre as quais, posso revelar paixões sinceras  por Álvaro, Ricardo e um camponês chamado Alberto. Mas foi Alexander Search, que trocava cartas com um tal Fernando, que crescera parte da infância em Durban (África do Sul), que me apresentou a ele numa Tabacaria, cuja porta tinha suspensa uma cruz, insinuando a morte do dono, o Alves. Fernando me puxou à rua, conheci um poeta com nome de Sá Carneiro. Atravessei a Península Ibérica num cavalo voador e deixei os fantasmas Bocage, Eça, Antero, Cesário. Mas ao passar pela fronteira arrumei um amor louco. Florbela Espanca espancou-me com versos. Na conexão Madri-Paris peguei a máquina do tempo que me teletransportou à época de Dom Quixote. A máquina louca do tempo ziguezagueando na boemia das palavras fez-me encontrar com Dumas e Victor num bar. Mas Mallarmé lançou-me um poema hermético para decifrar. Na esquina, um jovem de olhos azuis chamado Rimboud apontou na direção de Londres e, através da máquina do tempo, fui ter com Shakespeare. Na volta cruzei a Mancha rumo à Rússia, mas, na Alemanha, um certo Fausto quis que eu fizesse um pacto com Mefistófeles. Nada acertado. Dei-me com Tolstoi e Dostoievski numa Noite Branca. Com a máquina do tempo pude conhecer Kafka metamorfoseado em barata. Deu dó. Na Itália comi macarronada com Morávia e Umberto. Senti saudade da América e fui viver com Neruda em Isla Negra. Atravessei a Cordilheira dos Andes rumo ao Brasil. Fiz parada na Argentina, lá estava Ferreira Gullar exilado escrevendo seu Poema Sujo. Mas foi no Uruguai que comi  buenas parrillas com Mario Benedetti que me indicou as borboletas do Jardim de Mario Quintana.  Subi para Porto Alegre e conheci no Salgado Filho, prestes a tomar um voo, Veríssimo e Scliar.  Este ia ao Rio, o outro a São Paulo. Mais adiante, cheguei numa noite escura e de névoa a Curitiba. Procurei pelo vampiro que nunca dá as caras. Sequer um cemitério de Elefantes encontrei. Apareceu-me um mestiço de polaco vestindo  Quimono, levava bigode espesso e falava sucinto e preciso como um Haicai. A inflação e o caos brasileiros fizeram-me tomar novamente a máquina do tempo e viajar a Baltimore (USA). Poe escrevia, lugubremente, O Corvo: Never More! Contei-lhe sobre um futuro Dan Brown. Ele riu funestamente: “ganhará muito dinheiro...”

Peguei um voo direto ao Rio e encontrei um louco: era Lima Barreto bebendo cachaça e conversando com Policarpo Quaresma em Tupi-guarani. Mas um jovem velho, mulato e barbudo chamou-me a atenção. Seu nome era Machado. Tinha em seus livros vários estudos sobre a alma do ser humano, inclusive a minha alma peregrina de viajar por épocas. Só não era mais completo porque era humano. Li, reli, conversei com ele, pouco entendi. Cheio de raiva, resolvi ser trash. Vim tomar cerveja com um velho safado chamado Bukowski e fumar charuto com Álvares e Byron.

Exausto de algumas viagens chego à conclusão de que com minhas leituras eu me sinto quase um Fernão de Magalhães ou um Phileas Fogg: dou a volta ao mundo, de todas as épocas, sem sair de minha poltrona.

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