Meu filho tem a cara do pai. Olhos clarinhos sorridentes, nariz que
ameaça ser adunco; cabelo de anjo. Vive a sonhar e a imaginar as riquezas
materiais que não tem. Damo-nos as mãos numa harmonia íntima, palma a palma,
sinto-lhe quente e somos um amor de eternidade. Dói quando rompe na noite
silêncio, quer brincar ou porque se sujou, mas o hilário sorriso quase sem
dente – apenas os incisivos – faz valer a noite. Seu riso doce quando faço-lhe
cócegas contamina a casa com seus primeiros passos vacilantes e o esperado
primeiro “Papai”. E incrivelmente nas constipações da vida em que espirra, eu,
mal-estar.
Caminho gerreiro com ele por estádios onde joga minha equipe predileta.
Visto-lhe camisas, sem que ainda saiba o significado; canto-lhe o hino. Combinamos
bem um com outro. É como o encaixe perfeito de um cerrar de punho: os dedos da
mesma mão e do mesmo corpo, sempre diferentes, ficam-se acoplados. O vácuo e a
matéria.
Meu filho cresce à percepção dos olhos. Faz-se um ótimo aluno. Ótimas notas.
Argumenta, cria, recria, moraliza, e sabe que a perfeição é inumana. Conto-lhe
segredos de pai para afinidade, conquisto-o. Ensino-lhe o mundo geóide, a ser
cortês e humano, o nó de gravata, que Deus existe e peço-lhe perdão, não obstante,
ensino-lhe a pedir como a perdoar também. É deslumbrante vê-lo ver quadros. As
cores serenam seus olhos grandes acesos. Meus olhos, seus olhos. Diamante de
mil faces em que cada tom reflete o mundo. Explico-lhe nada mais que a verdade,
e que sonhar é gratuito, a defender-se das armadilhas da vida. De mãos pensas,
admiro-lhe a idiossincrasia.
Tem certa mania de olhar fixo e pensativo, inerte no tempo e coça as costas
à estronca de parede: herança do avô. É o esforço supremo e essencial da
juventude. Meu filho: amigo de todos. Ama os cães e admira os pássaros. Nas
vésperas de natal sempre a esperar uma estrela cadente e finge dormir para um
pedido. Acha a política suja e a religião um carro velho atolado na lama do
tempo. Chora pela violência, impacienta-se imaturo.
Engraçado é dar com ele a entender uma flor como um réquiem; a ter pena
das formigas e das baratas que vivem subumanas; e dos fungos parasitas que
crescem desesperadamente na casca das árvores dos jardins públicos.
Eu faço um
pedido a meu filho de jamais esquecer-se das paixões de um pai, dos segredos,
das tolerâncias e de cuidar-me ao fim da vida, quando numa cama de erros,
inválido, já com netos, talvez cego, não poder senti-lo em homem.
É já tarde. Num átimo particular e secreto, um insuportável e incomensurável
orgasmo — fogo-fátuo — despeço meu filho, meu filho onânico: dou descarga e ele
vai-se saudoso entre irmãos.
Amanhã faço outro.
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