quinta-feira, 28 de novembro de 2024

RETRATO DE SALA: 2ª SÉRIE A

 

Bastos, 13 de novembro 2024

 

Antes que o ano letivo acabasse, eu precisava escrever este retrato de sala. É com muito carinho que dedico a todos meus alunos da 2ª Série A da Escola Tsuya Ohno Kimura, escola que entrou na minha vida e dificilmente deverá sair.

 

Acordo e faço minhas abluções numa quarta-feira calorenta de derreter asfalto. Preparo-me para os trabalhos. Arrumo a mochila e sigo para a Escola. Chego um pouco atrasado, aliás, este é o meu problema crônico. Nunca fui de chegar adiantado. Conheci um certo professor que me disse: “é melhor chegar tarde do que nunca!”; eu por minha vez refaço a frase: “é melhor chegar atrasado e dar uma boa aula do que chegar adiantado e não ter a importância de um pardal na vida do aluno...”

Pois bem. Foram pardais que avistei ao chegar, esvoaçando o teto do pátio, os beirais do prédio.  Sento-me costumeiramente na fileira de banco sustentada à parede entre as salas 8 e 7, não mais para admirar pardais. Entretenho-me com professores, enfrento  reuniões, lido com papéis, converso com papéis; aporrinhações do oficio; mensagens eletrônicas .  O sinal me pune os tímpanos. É hora da aula.

Subo as escadarias velhas da escola com minha garrafa de tereré. Passo meus olhos na vidraça que assistiu por décadas alunos e alunos passarem, num sobe e desce frenético .  A subida é uma azáfama. A barriga balança a cada degrau galgado. Dou-me de frente com a sala nº6. A mística sala nº 6 que está de frente para a Avenida Gaspar Ricardo e fita generosamente o Fórum de Bastos.  Eis-me na 2ª série A da Escola Tsuya Ohno Kimura. Mas não é um dia de aula normal, é um dia de retrato.

Corro os olhos pela fileira da porta. Um rapaz com camiseta de time de futebol já me pergunta sobre o Santos. Ele as bochechas levemente entumecidas e um olhar discreto. Fala baixo, quase sussurra. A carteira de trás está vazia, mas tem dono. Um rapaz filósofo que mais falta do que fala. Na parte de trás uma coluna vertebral torta, cabeça pendendo na tela de um celular. O dó! Ele faz parte da galerinha do Free Fire. Na sequência uma moça que adora usar bota texana, e não as descalça nem para jogar uma partida de vôlei.  No canto da parede se esconde um rapaz com camiseta do PSG, que definitivamente não gosta de estudar. Ele é amigo do rapaz da coluna envergada no celular.

 Na segunda fileira surge uma moça de cabelo liso e da boca. Ninguém nunca a ouve falar e se lhe direcionamos palavras, ele se enrubesce toda.   No fundo, bem pertinho da janela, uma moça se consola na tela do celular e as vezes liga a câmera só para se ver e se aprova a maquiagem. Entre as duas fica por ali uma moça morena macérrima que confessou em texto que a sua rotina diária está a prática de rezar o terço. Nunca me esquecei disso.

Diante de mim, na fileira do meio, dois olhinhos de pálpebras levemente fendidas se protegem atrás das lentes redondas; cotovelos apoiados sobre a mesa e dedos entrelaçados. Uma boneca chinesa de porcelana se não fosse japonesa. A aluna que fala pouco e faz demais. O professor que não se orgulhar de você, não sabe o que é dar aula.

Cabelos vermelhos, sorriso de canto de boca nos esperam. É a moça mais calma da sala, que não se separa colega jogadora de vôlei do lado direito. Gostaria de confessar que a jogadora de vôlei de cabelos cacheados (uma gracinha), a moça do cabelo vermelho e a bonequinha de porcelana, se eu tivesse uma filha um dia com a paz de espírito e o interesse que vocês têm eu seria o pai mais feliz no raio de dez quarteirões.

Por alguns segundo eu lanço um olhar pela janela e alcanço o prédio do Fórum.  Parece que toda vez que subo àquela sala nº6, o Fórum do outro lado da avenida me dá lições de existência. Parece que aquele prédio olha para escola e diz coisas como estas: é desta escola aí que sairão pessoas que talvez um dia aqui julgarão ou serão julgadas. Um calafrio me acomete  como se verdade percorresse  minha espinha dorsal.

Prosseguimos com o retrato.

 Ela não tem celular. Maldade...! Nenhuma imagem é mais marcante e digna de um retrato quanto a menina de óculos e cabelos presos que se debruça na janela para observar a rua. Parece que tem um olhar de quem está pensando em fugir.

Quando ele abre a boca, parece um berrante. Um rapaz de voz grossa que adora futebol, Chat GPT e não aceita folgados.

Ali na frente da antepenúltima fileira há duas irmãs. Quem não as conhece vai achar que realmente são de fato irmãs. De tão parecidas nas atitudes e nos gestos cheguei a achar que eram uma pessoa só. São amigas que dão de graça um sorriso invejável, às vezes, com as mãos que cobrem as bocas e rostos envergonhados.   

Atrás das irmãs fica um ser meigo, delgado, cabelos lisos e olhar tal qual Mona Lisa. Faz parte da galera do vôlei. Uma moça de futuro.  Futuro também está bem ao seu lado, a aluna que tem cara de apaixonada, mas que enche os olhos do professor com suas redações.

Na última fileira o rapaz que não seria nada sem seu celular. O que seria dele sem o chat GPT? Umbilicalmente ligado à máquina. Uma hipotética pane na internet ou uma queda na carga bateria provocariam uma depressão sem precedentes.

Atrás surge a moça mais requisitada da 2ª série A. Amiga dos banheiros e bebedouros. Convidam-na para tudo. Desde empurrar carrinho como que para as eternas reuniões que nós professores nunca sabemos.

 No meio da última fileira um rapazinho de Paulo Afonso, de sotaque marcante e olhar interrogativo. Ele se dá muito bem com uma das irmãs fileira anterior.

O rapaz que tirou férias o ano inteiro ganhou apelido de chocolate branco. No fim da fileira está sentado o rapaz que não precisa estudar porque já está rico e com o contrato assinado com o SFC.

Todos estes são as alunos que me fazem rir e chorar e pelos quais eu faço de tudo, menos hambúrgueres.

O calor persiste; meu rosto goteja.  Chega o momento em que professores e alunos são salvos pelo gongo. Uns passam pelo banheiro, outras se ajustam diante do espelho. Meus alunos (que não são só meus) me deixam. A sala se faz vazia momentaneamente, amanhã nos falaremos, quem sabe.  A aula foi um retrato tirado pela órbita de um professor canhestro, com todos os seus defeitos humanos. Por isso somos interessantes, porque somos realmente assim, imperfeitos e cheios de particularidades inigualáveis.  No fundo no fundo cada aluno retratado é uma pérola a ser lapidada, que não queremos perder nem vender nenhuma. É um investimento de vida de uma família, de um professor. Mas a vida é um negócio intrigante e controverso, plena  de reviravoltas que nos impõe o medo.

Papai do céu, queria lhe fazer um pedido. Cuide destes alunos para que cresçam e se tornem pessoas melhores, de grande sucesso. Não permita que se tornem meros pardais. Que isto valha para os faltosos que não estiveram presentes neste retrato.

Emolduro este retrato e o penduro no alto da sala nº 6. Agora podemos desligar os ventiladores e deixar que o calor e as moscas se disputem no espaço. Tranquemos a porta, apaguemos as luzes. Quero descer as escadas com uma vontade de chorar igual criança que caiu da cama. Mas há mais motivo para sorrir quando me lembro que em tudo que faço para esta turminha tem o intuito de evitar que os pardais aumentem a revoada.