__Está
vendo este retrato, seu moço... É o de Reinaldo Nauape de Jesus. Morreu de um
acidente, nem parece que ontem. Era um menino. Rapazote. Como pode ver, seu
moço, era um desses moleques que correm atrás da bola aí; ele era assim.
Consegui vê-lo com meus próprios olhos. É de meu capricho que vou delatar.
***
Enquanto
eu lia da varanda, daquela varanda, da casa que era de minha mãe é que meu bairro é este aqui
vizinho; basta passar vinte , só vinte metros de pasto deste terreno baldio
que pertence a uma empreiteira do centro eu já dava de frente com a Vila Esperança, vila na qual viveu Reinaldo
Nauape de Jesus, o Nauape, como passaram a chamá-lo.
Dizem
que quando nascera, a mãe não o registrou em cartório. Era uma senhora
ignorante que se deu conta de fazê-lo existir por lei mais de um ano após ter-lhe dado a luz, quando ele, Nauape, já
dava seus primeiros passos pelas ruas desprovidas de pavimento asfáltico da
Vila Esperança.
Éramos diferentes. O meu
caso, foi muito diferente. Muito diferente do
dele. Moráramos, eu e minha mãe, naquela casa de varanda para este terreno.
Lá era já um bairro menos violento, de pessoas
com outros fins, sem muitos problemas. Todos quantos têm problemas neste mundo, disso sei.
Mas nós tínhamos e conseguíamos sorrir e comer razoavelmente. Eu e minha mãe.
A Mamãe,
como eu a considerava, privava-se para meus estudos. Ela era esclarecida;
pobre, mas esclarecida. Exigia que eu lesse enquanto os garotos demais corriam
e zoavam na rua. Eu não tinha amiguinhos. Era uma figura de lado; descartada.
Mas eu lia; e ai de mim se faltasse na escola que, a custo de um dia e meio na
fila, Mamãe me conseguira matricular. Mamãe era trabalhadora e trabalhadeira.
Começara na labuta como babá para uma família abastada do centro; fora ajudante
de feira, por curto período, quando pulou para auxiliar de escritório a convite
de um senhor gordo que a percebera nesta situação. No novo emprego, no qual
permaneceu até seu derradeiro dia de vida,
começou por carregar papéis burocráticos dum lado ao outro do
estabelecimento até que, com sua habilidade adquirida com a máquina datilógrafa que manuseava no fim de todo dia, foi ascendida a escriturária, cargo em que se
estacou definitivamente. Nem o motivo de minha adoção, que não me permito
narrá-lo, perturbou-lhe a comum vida corrida que levava. Criou-me como um filho
que jamais tivera.
***
Nauape
não lia. Jamais lera. Diga-se por passagem que nem este e nem sua mãe, D. Maria
de Jesus, tiveram culpa. A velha, como disse de sua ignorância, entendia a
escola como lugar de vagabundo que não trabalhava e procurava vida mole. Era
devota ferrenha de orixás e santos. Incorporava, de quando em quando, Pai
velho, Zé Pilintra e outros espíritos de terreiros de Macumba. Todos da
redondeza já a pilharam na rua toda transformada, com olhos virados, falando
nada com nada, e jurando, demoníaca e possessa, mortes e pestes no trabaio. Dizia de seu único filho ser
prometido da luz para o povo daquela Vila. E fazia promessa de quando tomasse
atitude de homem, vestiria todo de branco, dos sapatos ao colarinho,
religiosamente, toda segunda-feira. Vivi-a muito falar:
__Escola! Maquá! Boto o
menino em faina, mas não o coloco naquela sombra de ocientos. De filhinho de papai com mamãe e bobagem.
Verdade é aqui, oh, no braço! Reinaldinho é da luz. Ele cresce e vai servi aos
santos, e vai fazê muitos trabaio.
É justo desfazer qualquer
alusão à correlação quanto à crença de D. Maria de Jesus. Seu moço pode fazer
preconceito quanto a esta senhora, mas era muito asseada e zelosa, e além de
tudo, honesta com suas obrigações. Portanto, crença não faz a pendência
degenerativa do indivíduo, culturalmente.
O moleque crescera em meio
um ar insociável. Pés no chão, camisa furada, roupa da pechincha, faziam-no,
como muitos daqui, um rapaz incomum. Incomum se não houvesse avenidas e
vitrinas de calçados e bolsas, e se não existissem trajes finos, e filhos
finos, e crianças finas, destas que pintam nas ruas do centro; longe de seu
bairro de Vila Esperança. Crianças de uma outra realidade. Do outro lado da
balança.
***
O Marketing é poderoso, e
faz as cabeças, mesmo as dos bem sucedidos. Seduz e apaixona. Repercute
ferozmente. Pega-nos pelo coração, se não fosse a fraqueza que todo ser tem
para com as novidades. E D. Maria de Jesus não resmungara ao decidir comprar
uma utilidade que os moradores da Vila Esperança comentavam de muito antes. E
quando chegou aquilo em sua casa, estava metido numa caixa de papelão, pediu
para pô-lo sobre o sofá daqueles dois cômodos que compreendiam o barraco de
tábuas. E Já gritou com o moleque:
__ Olha, moleque! Não ponha a mão, hem. Se eu ver
você com essas mãos sujas de terra, botadas
aqui depondo as pontas dos dedos da mão direita sobre a caixa de papelão eu corto você de cinta,
hem. Olha lá, hem!
Nauape replicava, como que
anuindo.
__ Tá bem, Mãe. Tá bem. Pode ficar descansada.
Nauape olhou. A curiosidade
não se dissipou. Era corajoso. Não tinha medo da mãe, que era ruim, mas bem
zelosa. Em quinze dias, à televisão assistiam os dois, sorrindo e gargalhando
com as programações interativas.
Em seus olhos, que reluziam
o brilho das imagens reproduzidas pelo aparelho televisor, cintilavam fagulhas
de desejo. Um mundo todo em projeção para a sua mente toda aberta e desprovida
de proteção antimídia. Ele sorria. Ele amava. Apaixonava-se. Tão garoto de si.
Tão fraco. Depreendia-se todo diante daquilo. Nem quem o chamava, como que para
uma sorrateira brincada à rua, surpreendia-o. Para sair à rua, tornava-se um
custo tremendo; tendo a mãe de buscá-lo ou gritar, como o costume da casa.
__Vá para a Rua, Moleque!
Saia desta TV. Vai Queimar deste jeito.
A ele lhe aprazia, como a
todos lhes apraz, o Jornal Nacional da Rede Globo de Telecomunicações. Mesmo
sem saber o porquê, e estar preparado para saber como é a situação momentânea
do país, ele adorava as programações.
Com seus já quatorze anos,
lógico, logo após o seu programa predileto, corria à rua de chão puro do bairro
imaginar com os colegas e falar dos fatos.
__ Hei, meu! Cês viram lá o cara. Puts! atirou na cara dura contra os
polícia e saiu correno.
__ Hei, Nauape. O cara era maluco, mano. Deu tiro e saiu correno?
__É, véio!! Cês tinham que vê. Ninguém pegô o puto. Diz que roubou
Quinhentas pila do Posto e bateu de frente com os gambé chegano! Ah! Aí, aí foi
bala pra todo lado, mano.
E soltava risada alta.
Estas conversas eram longas.
As crianças do Bairro, numa maneira geral, não haviam opção para distração e
coisa assim. Quando não era TV, deviam empreender grande caminhada até o
córrego da Fazenda St. Estela, onde nadavam nus, em suas águas correntes e
comprometidas.
O que mudou sua vida, aquele
corpo negro já em puberdade, de olhos amendoados e cabelos sarará, foi o
noticiário de um traficante carioca em exclusiva tiragem ao Jornal. Que jurava
morte àqueles que o traíssem, e dava modos de ação no morro em que morava
contra as investidas policiais e rivais. Aquela gíria, aquele tom, aquele
enfeite.
A sedução foi fatal.
__Genial! Gritava diante
da TV, e repetia genial, muito legal!
__Que foi Moleque!? Você tá
louco? Replicou a mãe.
__ Não, mãe. É que o cara
falou legal. Você viu?
A mãe levantou da cadeira da
sala do barraco, desligou a TV, e de nada, parou em sua frente sem compreender
o que estava fazendo. Olhou-o. Fitaram-se. E ela mandou deitar-se que já era
tarde. Ele foi. Mas tenho certeza que naquela noite foi ele quem pulou a janela
da casa do Alcides pedreiro e furtou-lhe duzentos e cinqüenta pilas que estavam
de sopa sobre sua mesinha de ferramentas.
***
Amanhecia, e acordamos,
todos. Foi um comentário geral. Ninguém esclareceu. Deu polícia e tudo. O povo
do bairro não acreditou naquilo. E neste mesmo dia ele apareceu mostrando aos
moleques da redondeza um Trinta e Oito.
__ Olha aqui, porra! Quem
manda aqui sou eu, hem! Agora todo mundo aí vai comer na minha mão. E sou o
Nauape, hem.
Atirou quase no pé do
Languinho, menino respeitadinho na época, e no meio em que conversavam. Todo
mundo correu. O comentário repercutiu que a sua mãe não acreditou.
__ Moleque!! O que você
fez?? Seu louco!! Quer enfrentar, quer??
__ Cala a boca, sua vaca! Tô
cansado de sua encheção de saco! Se você me encher novamente, Puta, eu encho
seu Cu de bala, piranha!
Os olhos amendoados
exprimiam cólera. Empunhou a arma, exibiu-a à mãe, que, toda aterrorizada,
envergava o corpo, da cintura para cima,
todo para trás, como que para estar longe do cano da arma e do seu
alcance de fogo.
__Não faz isto, Nauape! Não
faz! Cadê seu respeito, filho?
E aos gritos rangia do modo
que um cão feroz faz a um invasor estranho, demonstrando dentes e raiva.
__Respeito? Você nunca me
respeitou, sua vaca! Pensa que meu ouvido é padre para ouvir o que quer. Ou que
é privada? Pensa?
__Não... Não, filho!
E já rumava de fasto
procurando as paredes do barraco com as mãos.
__Olha. Você vai ver! Mais
um pio no meu ouvido, você tá enterrada, hem. Só mais um, hem.
Voltou da ameaça à mãe, e
baixando a cabeça com a arma ainda empunhada disse sem querer fitá-la, que,
junto à parede, se entregava a um pranto convulsivo. Quis apaziguar a mãe:
__Só vou cumprir aquela
promessa, hem. É a toda segunda-feira, não é? Bem, já é muito, pode ter
certeza. Agora, não me encha mais o saco. Ouviu?
As relações com a mãe a
partir disso de certo que mudaram. A velha até então com suas
cinco décadas de anos, rijos por ser pobre, mas acabados por ser um ser
humano, já não saía mais à rua, a não ser por
trabalho. Nunca mais para passeio e conversas com vizinhos. Não era a
mesma. Definhou-se de desgosto e maltrato, como o dito em linhas anteriores.
Talvez esteja com os santos e orixás, ou com
Jesus.
Amém.
***
___ Olhem aqui. Prestem atenção! Prestem atenção.
Moranga, você desce pelo muro, e me espera quietinho, que eu pularei por aqui.
O Languinho fica na retaguarda. Oh... Languinho... Se aparecer alguém, meu
véio, é para atirar, hem! Nós vamos estar lá dentro, e as coisas são foda se
der trela. Sem comédia. Sem conversa.
Não paga sapo não, hem. Se não vai ter comigo. Vai lá!
E desceram as encostas do muro. E as armas atentas
atrás de defesas, de mato, postes. Era a casa de um bacana, filho de um
português que herdara terras e tocava adiante esta vida dura para todos. Um
senhor latifundiário. Sem mais nem menos, um latifundiário. Deu certo, deu
certo. Caíram para dentro da casa com facilidade. Não era comum numa cidade de
interior, de desigualdades acentuadas, mas de interior, haver assaltos
freqüentes, e de grande envergadura.
Acontecera, no máximo, por uma só vez, de surgir alguém batendo na porta da
delegacia por terem-lhe subtraído duzentos e cinqüenta pilas.
Surraram que surraram o português dos cãs, que,
amarrado já à cadeira da sala-de-estar
de sua casa-grande do centro da cidade, gemia que gemia por não poder proferir
socorro, com a boca entupida dum trapo de cuecas. Mulher e filhas para os
quartos trancados à chave.
Nauape e os companheiros, aliciados, bateram-se para
os lados da Esperança. Os bolsos dos xortes inflados de sorte e logro.
***
A aurora multicolor surgiu toda impressionada. Com polícias dando de cima na Vila. Até eu,
confesso, tive medo, quando me vieram dois homens uniformizados e rebombaram
suas vozes de perguntas acerca do paradeiro de três moleques: dois branquinhos,
um de cabelos caracolados, o outro cabelo tigela; e por um outro negrinho
sarará de olhos amendoados. Disse que nada sabia, e que não os conhecia, como
assim fizeram todos dali. Os polícias miraram-se, proferiram palavras
inaudíveis a mim, agradeceram e desceram a viela barrenta.
Não deu no Jornal Nacional este crime de assalto. A
cidade era muito pequena, e, sendo pequena, fica para trás e perde lugar para
outras que são maiores, de população superior. Foi assim que o Nauape pensou.
__ Porra, não
saiu na Globo, poxa! Olouco, meu! A gente rouba o cara mais rico daqui, e nem
uma filmagem. Puta que pariu! Eles vão ver...
Correu atrás de alguém que soubesse escrever. Aí que
entro na história. Alguém indicou-me-lhe. Naquele mesmo dia, ouvi bater na
porta que prontamente atendi. Era Nauape com uns moleques que entraram
soberanos de si pela minha varanda já perguntando sem pressão:
__ É você quem escreve, compadre?
__Sou, sim, senhor. proferi um senhor com medo,
mas confesso que, depois, no meio da conversa, estive mais tranqüilo do que
agora, que estou delatando-lhe esta história, seu moço. Ele continuou por dizer
logo o que gostaria.
__ Você assiste a Globo? Acho que sim, né? Eu
preciso que você escreva uma carta para aqueles cara lá. Que você explique que
o maior ladrão do Brasil está em Vila Esperança. É só.
Eu respirei. Impressionado, lógico. Com aqueles
rapazes mal-encarados olhando, sem saber o que pensavam. Fui Curto. Não
procurei enrolar a conversa para passar o tempo.
__Tudo bem,
senhor. Eu faço.
Ele concluiu humildemente:
__Preciso para hoje. Tudo bem?
__Sim. Sem problemas.
__Obrigado.
Perguntou-me quanto era por aquilo, eu acabei por
não cobrar. Que bom seria ter alguém assim famoso por aqui nesta vila, mesmo
que pelo modo culturalmente errado de trabalhar. Sim, claro. O roubo é um
serviço, marginalizado, mas é.
Passei duas horas escrevendo a carta que requis
muita atenção. O trabalho foi pouco. Eu já escrevera poeminhas simples, contos
sem muitas complicações e cartas para outros analfabetos dos muitos que aqui
ainda há. A carta foi formal, quase como uma comercial. Pedia gratamente a
presença da imprensa para tomar nota da emersão do maior ladrão de todos os
tempos. E que, o maior ladrão não estava no Rio, e nem em São Paulo, mas estava
era na Vila Esperança.
Em doze dias fomos correspondidos. Na carta de
resposta notei descaso nas poucas linhas. Pediram para que esse Nauape
esperasse criar cacife e que havia
muitos deste tipo na fila; e que ladrão não manda carta, ele age enfim.
Aprontei a correspondência e expliquei-a a Nauape,
que, sumariamente rasgou:
__Filhos das
Puta. Ah! Eu vou arrumar para estes caras. Ah! Se vou.
O Rapaz pegou na arma, já era uma pistola, comprada
com o dinheiro do último assalto. Gritou pelos companheiros, aliciados:
__Hei! Zoaram
nós, pomba! Temos que provar quem é que somos, porra! Vamo, vamo!!!
Partiram dali , da frente daquele casebre de tábuas,
direito para o centro. A tardinha da segunda-feira se escondia vagarosa e tímida. Lá em cima, no céu, o sol se punha
medroso; nuvens escuras rumavam para uma última nesga da abóbada celeste
descoberta. Eu fiquei quando eles se foram. Tentei dormir.
***
Quem pensa que ele roubou, que ele assaltou, tudo
isto é mentira. Nem foi Latrocínio.
A casa do prefeito era uma casa-grande do centro.
Muros altos e segurança por todo canto. Torres com câmaras que registravam quem
entrava e quem saía. Que culpa tinha o prefeito, eu não sei, eu não sabia. Mas
que faltava o asfalto prometido na Vila desde as eleições, faltava. Ouvi
comentários que, depois do incidente, ele já tinha suprimido três seguranças do
portão frontal, que jazeram ali, na calçada, sem chance a revide. E na porta da
sala, uma antessala, pequena recepção, o Senhor prefeito descia as escadas que
davam para sua alcova no piso superior, preocupado dos barulhos de estampidos
soados segundos antes. Este não teve nem conversa prévia de apaziguamento. Caiu
sem mesmo suspirar com um balaço que rebentou sua testa franzida a rugas.
O sentimento de fama era tanto que deu cabo até dos
cães presos e indefesos no canil. No prazo de cinco minutos, uma família toda
virara além, e, Nauape, todo sisudo e satisfeito, batia-se, sob chuviscos, para
a Vila Esperança.
***
As sirenes piscavam; High Lights acesos. Os polícias
desta vez, como pareciam, meu deus, desta vez vieram decididos. Casa a casa,
casebre a casebre, barraco a barraco, na chuva espessa que caía e lavava o
chão, e enlameava viaturas, pés e coturnos.
Passos e gritos.
__É a ordem! Saiam das casas com as mãos para cima!
Saiam! Saiam!
Tiros que atormentavam. Batida, revista, pente fino.
Um Homem, soldado, comprido, calmo, delgado e forte
empunhava uma Carabina .40. Ele olhava de um lado a outro, barraco a barraco a
ver, como os demais polícias, se via um moleque negrinho, cabelos sarará e
olhos amendoados.
A chuva contínua e sempre, caía. Onde estava o
Menino Nauape? Onde?
Minha casa fora revistada. Eu todo banhado, pois
tive de esperar lá de fora, resolvi esperar o fim daquela revista, sob chuva.
Os polícias estressados gritavam a cada barraco inocente passado.
__ Cadê aquele
desgraçado, porra! Cadê!
E avançavam em subida no escuro da noite lamacenta
daquela segunda-feira.
Nauape já pensava consigo, sozinho e detrás de um
porre de papelões do casebre do Zé do Papel:
__Droga! Os
polícia tão subindo. Logo me pegam, caralho!
Se saía, de certo que o perceberiam ao mover-se na
disparada rumo ao terreno baldio. Ainda mais com aquela veste alva e reluzente
do banho que a água que descia sem perdão deixara. Pensou, acho. Repensou.
Precisava sair. Fugir dali. O perigo nunca antes sentido trazia o medo jamais,
também, sentido. Nauape era corajoso. E era homem, pois que já vestia as
promessas de sua mãe.
___Preciso sair. Preciso Fugir. Eles me pegam. Eles
me Matam. Eles fazem. Eles são cruéis – pensava, acho.
Eu acompanhava a campanha, como todo o povo, que
estava atrás. As viaturas rangiam. Barcas de ar infernal. Pintadas de cores do
estado. Os polícias com suas boinas pretas e cheias de respeito chegavam perto.
Chegavam . Chegavam perto.
Nauape, detrás dos papelões, ligeiro, despia-se.
Ligeiro, despia-se. É mesmo. Aquele corpo negro na noite negra, ninguém
perceberia. Aquele corpo negro, ninguém perceberia, quando saísse correndo.
Seria difícil mirar alvo. Seria fácil escapar aquele corpo negro na noite
negra.
Atirou as vestes já despidas, quiçá sua proteção, e
no que levantou alternou as pernas finas e ligeiras que compunham seus
cinqüentas e dois quilos. Ligeiro e nu, vencia o barro, a chuva e os projéteis
invisíveis inexatos que resvalavam-lhe o esboço do corpo magro. Venceria,
venceria. Se não fosse o homem calmo. O homem calmo, comprido, delgado e forte
empunhara a Carabina .40 e estacara-se estando imóvel entre os demais fardados
que desesperados corriam e disparavam. Num seu único disparo o balaço
explodia-lhe os miolos, pela nuca, e já se viam choros e o corpo nu atolado, de
bruço, no barro, em sangue e pingos de água que lavavam o chão e crivavam a
lama.
***
___ Hoje vem a Globo, seu moço. Hoje veio a
imprensa. E esta aqui é a foto de Reinaldo Nauape de Jesus. O moleque que quis
ser famoso, e um acidente impediu-o de sê-lo.