quinta-feira, 30 de julho de 2015

Primeiros Passos

Confesso que na minha infância detestava ler. Creio que aos meninos é muito mais difícil a fruição na leitura. Para falar a verdade, tenho pouca diferença com o aluno atual. Era mais preguiçoso com a leitura e a escrita do que Macunaíma - "Ai, que preguiça..." E olha que não me faltavam livros. Na estante de casa jazia a Série Vaga-Lume. Adorava, na verdade, era ler com os olhos alheios. Quando dispunha de tempo, quem no-los lia era papai. Mas na maioria das vezes, era a bisavó Eleonora a maior incentivadora. Era um a comédia vê-la ler. O sofá da sala da casa velha de madeira do Parque Ibirapuera, em Tupã, era seu trono.  Exímia ledora, a bisa escolhia o livro a dedo. Era "Os Segredos de Taquara-Póca", de Francisco Marins.

Mineira que era, tinha no sangue aquela verve da leitura, o sotaque que cheirava a café e a entonação era como um leite morno: a combinação perfeita. Sentado no sinteco que recobria o assoalho da sala, observava-a fazer caretas, praguejar contra os vilões, enaltecer os honestos. De quando em quando, obedecendo aos trechos genuinamente românticos, a bisa depositava ao coração a mãozinha direita enrugada, cheia de sardas do tempo.

Era flexível como convém ao artista de palco. Engrossava a voz, imitava os bichos, os ruídos, as onomatopeias que surgiam pelo percurso. E eu, inconscientemente, sob sensações inefáveis, mergulhava numa catarse profunda...

Mas nada é eterno nesta vida: ela se foi quando eu tinha 12. Sua partida significou-me um caminho a seguir. Grande parte de mim em sala de aula é minha bisavó. Estas reminiscências me perseguem como bons espectros. Por isso sou velho. Por isso sou arcaico.  Mas quem não gosta de um cafezinho quente e de um leite tirado no dia, numa manhã outonal fresca como esta, que me faz tomar leite e relatar um saudoso passado?

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